Ideário arminiano. Abordagens sobre a teologia clássica de Jacó Armínio: suas similaridades, vertentes, ambivalências e divergências.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Seria Deus imutável, impassível e atemporal? (parte II)


Seria Deus imutável, impassível e atemporal? (parte II)

Debate entre teísmo tradicional e a teologia do processo

Por Bispo Ildo Mello*

QUESTÕES:1. Pode Deus ser perfeito e mutável ao mesmo tempo?
2. Negar a imutabilidade implica na crença de que Deus esteja em processo de evolução?
3. Como a cosmovisão pode afetar nosso conceito de Deus?
4. Que tipo de relacionamento Deus tem com os homens?
5. Deus é afetado positiva e/ou negativamente pelo que acontece no mundo?
6. Como entender os textos que falam de Deus como sendo contingente?
7. Deus sofre?
8. O que o mundo significa para Deus?
9. O que significa a expressão “Deus é amor”?
10. Deus pode se decepcionar com alguém?
11. Deus pode experimentar novidade?
12. Deus é atemporal?

RELEVÂNCIA DO TEMA.

• Nossa compreensão de Deus
• Nosso relacionamento com Deus
• O papel da oração
• Nossa missão
• Qual o retrato que estamos fazendo de Deus e passando para outras pessoas?


Dois Extremos.

Teismo Tradicional:
.. Tomás de Aquino.


Teologia do processo:
. Alfred North Whitehead


Cosmovisão

. Baseado no conceito grego de perfeição que é estático e atemporal.
. Influenciado pela cosmologia medieval que era estática.
. Ênfase na transcendência abstrata de Deus.


TEÍSMO TRADICIONAL

Imutabilidade

• Deus é imutável em essência, atributos, consciência e vontade.
• Deus é imutável por ser absolutamente perfeito não podendo mudar nem
mesmo para melhor.
• Deus não pode experimentar novidade.


Impassibilidade

• Deus não pode estar sujeito às alterações emocionais
• Não podendo também ser afetado positiva ou negativamente pelo mundo.
• Textos bíblicos que falam de Deus como demonstrando uma variedade de
sentimentos precisam ser interpretados como expressões antropomórficas.
• “Deus é amor” significaria apenas que Deus deseja boas coisas para suas
criaturas.
• O mundo pode estar relacionado com Deus, pois é dependente dEle, mas Deus
não pode realmente relacionar-se com o mundo.
• A relação Deus-mundo é como uma avenida de mão única.


Atemporalidade

• Tudo aquilo que se encontra dentro da dimensão do tempo, por ser mutável, é imperfeito
• Para um Deus atemporal, passado, presente e futuro existem em um eterno
presente.
• Não havendo nada novo que Deus possa conhecer ou experimentar.
• Teólogos da Idade Média não demonstraram nenhum interesse sobre o
aspecto histórico do cristianismo.


TEOLOGIA DO PROCESSO

Cosmovisão Atual e Dinâmica

• Teoria da evolução de Darwin - Um mundo em processo de criação
• Teoria da relatividade de Einstein
• Conhecimento do mundo subatômico
• Teoria Quântica
• Um universo embriônico e incompleto, onde mudança e desenvolvimento são marcantes
• Movimento e novidade fazem intimamente parte de sua experiência para serem ignorados ou tratados superficialmente.
• Mudar não envolve apenas um eterno retorno a um preestabelecido padrão, mas à emergência de uma novidade genuína.
• Levam muito a sério os temas:
• tornar-se
• Relação
• novidade
• Enfatizando a primazia do:
• “tornar-se” sobre o “ser”,
• “relativo” sobre o “absoluto”,
• “interdependente” sobre o “independente”
• Deus é visto como a exemplificação maior dos princípios metafísicos segundo os quais todas as coisas são explicadas
• Deus não seria uma excessão a regra
• Teologia Natural
• Ênfase na imanência de Deus e em relacionamentos dinâmicos e significativos.


Conceito Bipolar

• Deus teria um aspecto abstrato e absoluto
• e um outro que seria concreto e relativo
• Natureza primordial e abstrata, perfeição em amor, bondade e onipresença
• Natureza conseqüente e concreta: limitado, sujeito ao desenvolvimento, desafiado à auto-superar-se criativamente.
• Infinito em potencial,
• Mas ainda em processo de evolução como e com o mundo.
• O relacionamento Deus-mundo seria o de interdependência
• O mundo seria sua natureza conseqüente = “pan-en-teísmo”
• Deus estaria relacionado com o mundo assim como nós estamos relacionados com o
nosso corpo.
• O físico é visto como um processo mental, um fenômeno espiritual.
• Deus não apenas influencia cada ocasião de experiência, mas também, é afetado por cada uma delas.
• Deus é infinito em sua potencialidade, naquilo que Ele pode vir a ser ou tornar-se, não naquilo que Ele é.
• Deus é infinitamente capaz de aprimorar-se. Afirmam que infinitude absoluta não faz Sentido.
• “O dinâmico e simpático Deus da revelação cristã, que revela-se como amor na pessoa de Jesus Cristo, está menos em casa num mundo de estáticas substâncias do que no dinâmico e novo mundo de relações do pensamento do processo”.
• Deus realmente se sensibiliza, se emociona, se entristece, se compadece, sofre, se alegra, fica admirado…
• Pais que permanecem em absoluta alegria enquanto seus filhos estão em agonia não são considerados perfeitos.
• Negam também o estereótipo masculino aplicado a Deus, o que só serviu para reforçar a imagem de Deus como controlador, independente, não-receptivo e não responsivo, insensível, inflexível e sem emoções.


TEOLOGIA NATURAL

• O que o Teísmo Tradicional e a Teologia do Processo tem em comum?
• Ambos são adeptos da Teologia Natural.
• Pressuposto de que existe uma fonte dupla geradora do conhecimento de Deus.
• Assevera que é possível chegar ao conhecimento de Deus à parte da Revelação específica.
• Forte orientação antropológica, ontológica, metafísica e filosófica.
• As cinco provas racionais para a existência de Deus apresentadas por Aquino ilustram bem este método:


• 1. Do movimento para um motor imóvel;
• 2. Dos efeitos para uma Causa Primeira;
• 3. Da existência contingente para a Existência Necessária;
• 4. Dos graus da perfeição para um Ser Perfeitíssimo;
• 5. Da ordem na natureza para um Ordenador.


• Vemos a força da teologia natural na doutrina panenteísta, pois crêem que Deus está manifesto no mundo criado, mais que isto, o mundo é o corpo de Deus.
• É o mesmo erro cometido por Aquino, Schleiermacher, Otto e tantos outros, de partir da criação para se chegar ao Criador, do homem para Deus, de baixo para cima.
• Estas são teologias baseadas no homem, que exaltam o homem em detrimento do próprio Deus.
• Minhas pressuposições sobre a prioridade da autoridade das Escrituras Sagradas não encontram eco nestas teologias.
• Busca exagerada por Relevância e Contextualização
• Ambos buscam um conceito de Deus que esteja em harmonia com as cosmovisões de
suas respectivas culturas.
• Advogam um lugar para a teologia no reino das demais ciências
• Perigo
• Tende ao desviar do sentido natural e original do texto.
• Corre-se sempre o risco de negligenciar a cosmovisão dos próprios hebreus.


CRÍTICA DE BARTH A TEOLOGIA NATURAL

• Deus é absolutamente outro, distinto de sua criação.
• Nega a existência de qualquer analogia na natureza, na humanidade, ou na história que seja capaz de fornecer uma conexão para o conhecimento de Deus.
• Toda e qualquer defesa da fé deve estar unicamente baseada nos atos de Deus como revelados nas Escrituras;
• Qualquer apologia baseada somente na razão acaba diluindo a força da Palavra.
• O conhecimento de Deus não é algo inerente ao homem, não é uma descoberta humana, não está baseado na razão e na experiência humana, mas é o reconhecimento da graça reveladora de Deus.
• Barth diz que o mundo existe em Deus, bem como ao lado e fora de Deus, negando assim toda espécie de monismo.
• É um erro dizer que o mundo é um elemento necessário de Deus, um modo divino. Este foi o erro de Philo e do Gnosticismo, que agora tem se repetido no panenteísmo da teologia do processo.
• O objeto da teologia evangélica é Deus na história de seus feitos como revelado a nós em Sua Palavra, pois Deus é quem Ele é em suas obras.
• A imanência de Deus deve ser entendida em sentido dialético com Sua transcendência, pois Deus não se manifesta em todos os lugares de maneira igual.
• Em Sua liberdade, Deus escolhe se revelar ao homem num local definido, distinto e específico.
• O testemunho e a auto-revelação de Deus tem o seu lugar na História de Israel e na encarnação de Cristo.
• Jesus é a chave para o conhecimento de Deus. Sem esta chave, embora Deus esteja presente no mundo numa diversidade de detalhes, é impossível conhecê-lo
• Os povos que tiveram acesso apenas a revelação geral aderiram ao politeísmo
• Curioso notar que, embora ambos os pontos de vista façam uso do método da Analogia do Ser da Teologia Natural, por fim, tenham chegado a conclusões tão antagônicas.


AVALIAÇÃO

• A forma como o tomismo apresenta a imutabilidade divina freqüentemente sugere um Deus que é completamente impassível, indiferente iceberg metafísico, que lida conosco numa via de mão única, onde meu amor ou falta de amor, minha salvação ou perdição, não fazem a menor diferença para ele.
• Mas, os teólogos do processo, em seu afã em defender a mutabilidade de Deus, têm pago um alto preço, tendo como resultado a crença num deus que é finito, impotente e dependente, mais merecedor de nossa pena do que de nossa adoração.
• Os teólogos do processo fazem Deus parecer ser pouco mais que um aspecto da realidade. Não ficando claro em que sentido Ele é um ser pessoal e ativo.
• Os teólogos do processo estão certos em criticar alguns ensinos de Tomás de Aquino, principalmente aqueles que apresentam Deus de forma fria, estática e impassível, isolado e sem real, dinâmico e significativo relacionamento com o mundo.
• As nossas próprias orações estariam também desprovidas de significado se não existisse um relacionamento real e interpessoal entre Deus e os homens.
• Portanto, não há que se duvidar que o Deus das Escrituras Sagradas é um Deus de amor e genuína compaixão.
• Estão certos em afirmar que o mundo tem significado para Deus (Jo 3.16)
• Mas, enquanto a Bíblia descreve Deus como estando envolvido com o mundo, ela também fala de Deus como existindo antes da criação, ressaltando seu “status” de independência.
• Como pode o Deus da Bíblia fazer promessas no caso de ser finito, não estando em condições de assegurar o cumprimento?
• Os teólogos do processo falam pouco sobre a cruz e reduzem Jesus a um bom exemplo
• No pensamento do processo, Deus é totalmente sujeito as vicissitudes de mudança, nada pode assegurar sua identidade.
• Qual razão, então, têm os cristãos hoje para acreditar que o Deus que eles adoram é o mesmo Deus adorado por Moisés e revelado por Jesus Cristo?
• O teísmo tradicional apela para o argumento de linguagem antropomórfica quando se depara com textos que contrariam sua visão preestabelecida de Deus, numa tentativa de esvaziar o significado do próprio texto.
• As metáforas não possuem valor para expressar a imagem de Deus? (Hb 1.1, ex: Oséias)
• Os teólogos do processo advogam a autoridade bíblica para aqueles textos que concordam com o seu ponto de vista, ignorando aqueles que lhe são contrários.


UMA PROPOSTA ALTERNATIVA

• Não estamos obrigados a ter que escolher entre o pacote de atributos do tomismo e o conceito panenteísta de Deus.
• Não devemos usar a Bíblia para defender nossas pressuposições, devemos permitir que a Bíblia fale por si mesma.
• Não devemos permitir que idéias preconcebidas distorçam nossa leitura das Escrituras
• Precisamos levar em consideração a cosmovisão dos receptáculos originais. A negligência deste princípio é perceptível tanto em Tomás de Aquino quanto na teologia do processo.
• Em muitos pontos, os ataques da teologia do processo contra o tomismo são justificados, mas isto não implica em abandonar a crença em cada um dos atributos de Deus defendidos por Aquino e aderir ao panenteísmo.
• Dentro do próprio teísmo existem variadas interpretações sobre os atributos de Deus.
• A fé bíblica afirma que o perfeito Deus inclui criativa interação que é consistente com Seu imutável caráter e propósito.
• Proponho o método, protestante por excelência (Sola Scriptura), da “Analogia da Fé”, que conclama que a Bíblia é o ponto de partida para o conhecimento de Deus, que se dá através de sua auto-revelação específica e objetiva na história de Israel e em Cristo. Pois Cristo é a medida de todas as coisas e não o homem! (Jo 1.14; Cl 1.15 e Hb 1.3)
• O movimento teológico tem sua direção de cima para baixo, baseado na soberania de Deus que é transcendente e livre, mas que em amor escolhe se revelar ao homem. Como ensinou Barth, “Deus é livre para nós através do Filho e, em nós, através do Espírito”. (Hb 1.1)
• “Ninguém pode lançar outro fundamento, além do que foi posto” (1 Co 2.11).


O Deus das Escrituras é um Deus pessoal, de amor compassivo e Sofredor.

• Não devemos reduzir o Senhor vivo, ativo e pessoal a um princípio impessoal e
estático
• Embora somente Deus tenha vida em Si mesmo, Ele tem outorgado vida a muitos
outros a fim de participar de relacionamentos pessoais com eles.
• Ter emoções é próprio de um ser pessoal.
• Estabelecer relacionamentos afetivos é próprio de um ser pessoal.
• Deus tem total domínio sobre suas emoções, não sofrendo, portanto, de nenhum
distúrbio emocional.
• Amar implica em ser afetado pelas ações e condições do ser amado.
• Amar sem emoções, simpatia e compaixão é uma contradição.
• Um amor frio e indiferente, desprovido de empatia, não é nada inspirador e não
encontra respaldo bíblico.
• Teofanias e metáforas não foram maneiras de Deus se revelar ao seu povo?
(Hb 1.1)
• Os profetas expressavam a Deus não apenas através de suas palavras, mas
também de suas vidas e sentimentos (Moisés, Isaías, Jeremias, Oséias…)
• Deus revela-se plenamente em Cristo (Jo 1.14; Cl 1.15 e Hb 1.3).


A BÍBLIA DESCONHECE UM DEUS ATEMPORAL

• A idéia de perfeição estática, imutável e atemporal não é de origem cristã, mas
grega
• Os verbos que descrevem Deus criando ou preservando, descrevem
atividades que contém uma inevitável dimensão temporal.
• A atividade de Deus deve estar no tempo, pois Deus não pode ser separado
de seu atos.
• Deus precisa estar no tempo para entendermos como pode sua ira durar apenas um instante
• Para entrar em real relacionamento.
• Os diálogos entre Deus e os profetas envolvendo promessas e juízos condicionais de Deus precisam ser levados a sério.
• Textos bíblicos que relatam Deus como estando incerto em relação a alguns eventos futuros precisam ser levados a sério (Am 5.15; Ex 32.30; Ez 12.1-3 e Jr
26.2-3)
• Textos que falam que o povo não agiu como Deus pensava que agiria precisam ser levados a sério:
• “E, depois de ela ter feito tudo isso, eu pensei que ela voltaria para mim, mas não voltou...” (Jr 3.7).
• Algo do futuro deve estar em aberto para que o homem seja livre
• Como um grande mestre de xadrez, a despeito dos lances do adversário, Deus conduz o jogo para sua vitória.
• Não poderia Deus autolimitar-se para experimentar novidade e estabelecer relacionamentos íntegros e reais com suas criaturas?
• Existem alegrias e muitas emoções nas explorações e descobertas humanas.
• O que é mais chato que assistir uma corrida inteira de fórmula 1 quando já se
sabe tudo que vai acontecer?


PAPEL DA ORAÇÃO

Papel das Orações e questões relativas a recompensas e juízos.

• Qual seria o papel da oração se tudo estivesse predeterminado?
• Coisas acontecem e deixam de acontecer devido a orações
• Deus é afetado positivamente por nossas orações feitas aqui na terra (1 Rs 8.12-66)
• Somos responsáveis por nossos atos. Nossos atos são significativos.
• A impiedade humana têm afetado a Deus, a ponto de desencadear o seu
juízo (Jr 4.23-28 e Jl 2.10).


DEUS PODE SE ARREPENDER?

• Deve-se procurar entender o que os autores do AT queriam dizer com o uso do verbo “arrepender” tendo Deus como sujeito.
• Derek Kidner, ao comentar Gn 6.618, diz que os autores do AT empregam as expressões mais ousadas, contrabalançadas em outros lugares, se necessário, mas não enfraquecidas.
• Exemplo: (1 Sm 15.29,35) onde o autor afirma primeiro que Deus não é homem para mentir e nem se arrepender, mas logo abaixo, diz que Deus se arrependeu de ter escolhido Saul para ser rei.
• O que ele queria comunicar é que nós podemos confiar em Deus e em sua promessas, pois Ele não mente e nem é instável.
• Já, no v. 35, vemos que Deus está decepcionado com Saul, pois não foi para se comportar daquele modo que Deus havia elegido Saul como rei.
• Deus estava decepcionado com Saul, arrependido de tê-lo elegido rei e estava fazendo algo a respeito, no caso, estava providenciando outro rei.
• Neste sentido, o arrependimento de Deus não deve ser entendido como um ato de alguém volúvel, mas como alguém que teve sua confiança traída.


“Deixemos de lado nossos pensamentos sobre Deus e permitamos que Deus e não os nossos pensamentos sobre Ele, determinem qual seja a verdade sobre Deus”
(Barth)


*Bispo José Ildo Swartele de Mello
Casado com Ana Cristina, pai de três filhos: Samuel, Daniel e Rafael, é também Professor de Teologia, Escatologia e Evangelização na Faculdade Metodista Livre. Formado em Bacharel pela Faculdade Metodista Livre, cursou Mestrado em Teologia na Faculdade Teológica Batista de São Paulo e fez Doutorado em Ministério na Faculdade Teológica Sul Americana. Pastor desde 1986 (Cidade Ademar 86-88; Vila Guiomar 89; Vila Bonilha 90-97, Aeroporto 98-2004), serve atualmente como Pastor da Imel de Mirandópolis, como Bispo da Igreja Metodista Livre do Brasil e como presidente do Concílio Mundial de Bispos.
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Fonte: http://imeldemirandopolis.blogspot.com/2011/04/seria-deus-imutavel-impassivel-e.html
Imagem: Bispo Ildo Mello


domingo, 10 de abril de 2011

Distanciamento entre o professar e o ser.

Distanciamento entre o professar e o ser.
Coerência e incoerências entre a vida -, religião, dogmas, doutrinas e teologias.

Quando indagamos – o que Deus deseja de mim? - ou mesmo, o que devo fazer? - o que devo escolher? - implicitamente, consciente ou inconscientemente estamos a admitir que certas possibilidades estão abertas, de tal forma que se atualizam ou estão a se atualizar, de acordo com a nossa postura. Até mesmo as pessoas fatalistas, que acreditam em certo determinismo cósmico, em sua vivência cotidiana, não suprimem as indagações – o que devo fazer? - o que devo escolher?- e, até mesmo, diante dessas indagações, diligentemente refletem, visando praticar escolhas de maneira mais consciente, tomando atitudes que melhor consequência resultará em sua vida.

Quando perguntamos - O que Deus quer de mim? - implicitamente perguntamos – o que devo fazer para agradá-lo? Perguntando - o que Deus quer de mim?- estamos a admitir que Deus queira de mim alguma coisa que ainda não foi realizada, e a nossa preocupação em entender o querer de Deus, implica na possibilidade de não atentarmos para o seu desejo, e consequentemente não cumprir o seu querer. Se não fosse assim, não nos preocuparíamos.

Entramos nesse questionamento com a intenção de destacar que muitas ideias tidas como bíblicas e adotadas por muita gente, não alcançam equivalência na vida real. Fala-se, por exemplo, que Deus tudo determinou, porém, na prática, o dogma assumido não é levado as suas últimas consequências. Como qualquer pessoa que crê que as possibilidades ainda estão abertas, aquelas que dizem acreditar no controle determinista absolutista de Deus, controle que não leva em consideração escolhas e práticas humanas, controle que, de tão absoluto selou a vida de cada pessoa, inclusive preordenando cada ato e cada escolha, não deixam de se preocupar com suas atitudes e com suas escolhas. Como quaisquer pessoas, aquelas que reafirmam o controle determinista de Deus, lutam para que suas ideias sejam aceitas, inclusive sua ideologia filosófica-teológica.

A aceitação da ideia de um Deus absolutamente determinista cria uma série de problemas, e consequentemente, invalida uma série de posturas. Por exemplo, aceitando que Deus é absolutamente determinista, logicamente deve-se aceitar que em Deus não existe vontade, pois diante de seu determinismo absolutista, tudo é - sendo assim, não existe espaço para o desejo ou vontade. Para um Deus absolutamente determinista, tudo está posto, por isso não existe a necessidade de chamada de atenção, pois tudo o que é, está determinado por sua autoridade absolutista/determinista.

Quanto às posturas, é incoerente com o conceito “'Deus - ser soberano, que, como tal, absolutamente determinista tudo” - a ação consciente de arrepender-se, preocupar-se, pedir, desejar agradá-lo, buscar agradá-lo, refletir, tencionar, planejar. Se cremos no determinismo absoluto, logo, devemos acreditar que tudo o que nos ocorre, tudo o que temos ou o que não temos, tudo o que sabemos ou que deixamos de saber, em uma frase, tudo o que possuímos ou deixemos de possuir – foi dantes determinado, portanto cada atitude que visa fugir a essa determinação, é incoerente com o dogma professado que conceitua Deus como “ser soberano, que, como tal, que como absolutamente determina tudo”. Adorando um Deus com as características afirmadas por tal dogma, invalidamos nossa reverência e adoração, quando, e, por exemplo – planejamos nossas vidas ou conscientemente nos esforçamos ou mesmo nos preocupamos com a consequência que cada ação tomada nos resultará. Se intentarmos ser coerentes a reverência e adoração a um Deus absolutamente determinista –, devemos sempre, e apenas, nos resignar diante das coisas que nos ocorrem, aceitando-as - sem tentar conscientemente mudar o curso ou planejar nossas ações intentando o alcance de um fim desejado.

Toda e qualquer pessoa que não se conforma com sua sorte, inclusive com o pecado praticado ou com o agravo a graça de Deus, não pode professar a doutrina que apresenta Deus como “ser soberano, que, como tal, absolutamente determinista tudo” e ao mesmo tempo ser coerente. Não existe nenhuma coerência entre a profissão desse dogma, que conceitua Deus como “ser soberano, que, como tal, absolutamente determinista tudo” com posturas como, e, por exemplo, preocupação com o curso da vida, arrependimento de pecados, etc.

Não é válida a atitude de professar uma doutrina, defendendo-a, lutando por ela, sem encarná-la na vida prática e diária. Ou aceitamos a doutrina que apresenta Deus como “ser soberano, que, como tal, absolutamente determinista tudo” nos resignando diante de tudo o que nos ocorre, aceitando passivamente o influxo da força que nos domina, ou, caso nos preocupemos com a nossa sorte, não conseguindo aceitar o pecado - o mal que fazemos e que não queremos fazer (Rm 7.19) -, procuremos conhecer o compassivo Deus de amor, que amou o mundo de tal forma, chegando ao ponto de entregar o seu filho em benefício de muitos, que chama todos ao arrependimento, e que nos apresenta um advogado junto ao Pai, para nos defender do erro que praticamos e que, na opção por Cristo, rejeitamos. Acolhemos então o Cristo que julgará a cada um segundo as suas obras, que, manifestando sua graça a todos os homens, sem acepção, verdadeiramente e efetivamente dá oportunidade a todos, de toda raça, tribo ou nação. Crendo que Deus realmente é um Deus de amor, estamos adotando, consciente ou inconscientemente a interpretação doutrinária/teológica que apresenta Deus como um ser justo, que julga efetivamente cada um, segundo as suas obras, e, por conseguinte, os julga segundo as nossas reais escolhas e possibilidades.

Lailson Castanha


segunda-feira, 7 de março de 2011

OS TERMOS DA SALVAÇÃO

OS TERMOS DA SALVAÇÃO

Bispo José Ildo Swartele de Melo.
ÍNDICE ANALÍTICO

INTRODUÇÃO
1. FÉ EM JESUS, INDEPENDENTE DE ARREPENDIMENTO, SALVA?
1.1. OS ARGUMENTOS DE HODGES
1.2. REFUTANDO OS ARGUMENTOS DE HODGES
1.2.1. REDENÇÃO
1.2.2.JUSTIFICAÇÃO
1.2.3.REGENERAÇÃO
1.2.4. BATISMO
2. PODE ALGUÉM SER CRISTÃO SEM SER DISCÍPULO?
3. SUBMISSÃO AO SENHORIO DE CRISTO É INDISPENSÁVEL PARA A SALVAÇÃO?
CONCLUSÃO

.
INTRODUÇÃO

Quais são as condições que um homem deve preencher para receber a salvação? Existe uma controvérsia entre aqueles que afirmam ser a salvação um dom gratuito de Deus. A disputa está em que, enquanto, alguns sustentam que a fé seja a única condição para que o homem seja salvo, outros afirmam a necessidade do arrependimento. Os primeiros fazem diferença entre crente e discípulo e não acreditam ser necessário uma submissão ao senhorio de Jesus Cristo para que alguém seja salvo, bastando apenas recebê-lo como Salvador e acusam o outro grupo de estarem pervertendo a graça pura do Evangelho. Já os que enfatizam a necessidade da submissão ao senhorio de Cristo não conseguem enxergar nenhuma distinção entre crente e discípulo e acusam os defensores da "graça livre" de estarem barateando o Evangelho.

Poderia alguém ser salvo sem ter se arrependido, ter fé sem ter obras, ser crente sem ser discípulo, receber Jesus como Salvador, mas não tê-lo como Senhor?
Este trabalho tem como objetivo tratar destas questões, indo um pouco além de MacArthur e Millard, na confrontação dos argumentos de Hodges, pois apresento alguns novos textos que ainda não haviam sido discutidos, bem como o tema do batismo e seu significado, que não poderia ser ignorado.


1. FÉ EM JESUS, INDEPENDENTE DE ARREPENDIMENTO, SALVA?
1.1. OS ARGUMENTOS DE HODGES


Hodges, um dos principais defensores da "Graça Livre", afirma que o caminho da salvação é muito simples, conforme as palavras de Jesus em Jo 6.47: "Em verdade, em verdade vos digo: Quem crê, tem a vida eterna." Tão simples que qualquer criança pode entender. E, que, através de versos tão simples como estes, milhões de pessoas tem encontrado a Cristo, através dos séculos. Hodges afirma que os defensores da necessidade de submissão ao senhorio de Cristo para a salvação tem transformado as palavras simples de Jesus num complexo e intrincado plano de salvação, onde as palavras de Jesus, em Jo 7.47, seriam entendidas da seguinte forma: "Em verdade, em verdade vos digo, quem se arrepender, crer, e se submeter totalmente a minha vontade, tem a vida eterna." E que todas estas adições estariam implícitas no termo "crer". Em sua opinião, isto seria um absurdo que estaria contrariando o contexto de todo o Evangelho de João, que tendo como propósito principal evangelizar (Jo 20.30,31), não menciona uma vez sequer a necessidade de arrependimento e submissão ao senhorio de Cristo visando a obtenção da salvação, mas unicamente fé.(1)

Hodges evoca os reformadores Lutero e Calvino e lembra o grande lema da reforma: "sola fide" - "fé somente" e não arependimento e fé como a única condição para a justificação e vida eterna. E é enfático ao afirmar: "fazer do arrependimento uma condição para a salvação eterna é nada menos que regressar ao dogma católico-romano".(2) Cita também, como base bíblica, Rm 4.3 e At. 16.31.

Para ele o arrependimento não tem a ver com salvação, mas sim com comunhão e um relacionamento harmonioso com a vontade de Deus. Citando a parábola do "Filho Pródigo", Hodges destaca que a restauração do filho perdido foi muito mais fácil do que ele imaginava, e que a estória não é uma simples estória sobre salvação, mas sobre como se deu o reencontro e a restauração da comunhão entre um pai e seu filho rebelde, culminando num banquete festivo. E usa o mesmo argumento para entender o texto de Lc 5.31,32, afirmando que o texto diz respeito a um convite a pecadores para se "sentarem a mesa", tendo comunhão com Deus, e que não se trata, necessariamente, de salvação. Neste sentido, arrependimento é também exigido dos cristãos (Ap 3.19-20).

Hodges conclui sua argumentação dizendo que Deus pode usar o arrependimento como um estímulo à fé, como também pode usar a gratidão, o medo, a insatisfação e uma série de outros incentivos. Mas quando se trata de um convite à salvação, suas palavras são claras: "... Aquele que tem sede, venha, e quem quiser receba de graça a água da vida" (Ap 22.17b). "Deus tem apenas um meio de dar esta água." Afirma Hodges, "Ele a dá livremente. Mas Deus tem muitos meios de fazer as pessoas desejarem a água que Ele dá."(3)

1.2. REFUTANDO OS ARGUMENTOS DE HODGES

Ao meu ver, Hodges falha ao reduzir a salvação ao aspecto da justificação. Faz questão de não usar o termo regeneração, quando diz: "Fé somente (não arrependimento e fé) é a única condição para obter-se a justificação e a vida eterna." (4) O mesmo ocorre em outros trechos como, por exemplo: "Harmonia - companheirismo - entre uma humanidade pecadora e um deus misericordioso sempre deve ser baseada em arrependimento, assim como a justificação deve sempre basear-se unicamente na fé."(5) Mas não podemos entender a salvação como se ela implicasse apenas em justificação. Para responder a Hodges, seria necessário fazer uma breve explanação da doutrina da salvação, onde trataríamos também do sacramento do batismo. Salvação significa sermos redimidos do poder das trevas e do pecado, justificados da culpa do pecado, regenerados para um novo viver, pois que adotados como filhos de Deus, devemos ser seus imitadores.

1.2.1. REDENÇÃO

O pecado separou o homem de Deus e o escravizou. Como afirma Stott: "O pecado não é meramente um ato ou hábito exterior; é uma corrupção profundamente arraigada no íntimo".(6) Muitas vezes no Novo Testamento os homens são descritos como escravos (Jo 8.31-34; Rm 6.17, Tt 3.3).

Sempre que os homens por sua própria culpa ou através de algum poder superior ficam submetidos ao controle de outra pessoa, e perdem sua liberdade para implementar a sua vontade e as suas decisões, e quando seus próprios recursos são inadequados para enfrentar aquele outro poder, podem obter de novo a sua liberdade somente mediante a intervenção de um terceiro. No NT, conforme o aspecto encarado, o grupo de palavras gr. associado com lyo, sozo, rhyomai, é empregado para expressar semelhante intervenção. lyo, "soltar" (42 vezes no NT), é usado para expressar a libertação das cadeias ou mediante o pagamento de um resgate (lytron), mas tem outras matizes de sentido que também se discutem aqui. sozo (106 vezes no NT) é o termo mais comum e tem a gama mais larga de sentidos. De modo predominante significa "salvar", "preservar" e "libertar". Aquele que menos vezes se emprega é Irhyomai (16 vezes), tem a gama mais estreita de significados, i.é, "salvar", "libertar", e assim, "livrar de um perigo ameaçador ou agudo"... No NT, esses termos se empregam de modo preeminente para a obra redentora de Cristo. (7)Stott define salvação como libertação do pecado.(8) E em outra parte ele diz:

"O que necessita o homem é de uma transformação radical da natureza, o que o Professor H. M. Gwatkin denominou 'uma transformação do ego para o não-ego'. O homem não pode operar tal coisa dentro de si mesmo. Novamente dizemos, ele precisa de um salvador... Ele morreu por nossos pecados a fim de terminar com nossa alienação e levar-nos de volta a Deus. Ele ressurgiu e enviou o Espírito Santo a fim de que os homens possam nascer de novo, recebendo uma nova natureza e sendo libertos da escravidão de seus pecados."(9)

Embora a redenção também tenha uma dimensão futura, pois a sua plenitude só virá quando da Segunda Vinda de Cristo: "...mas também nós que temos as primícias do Espírito, igualmente gememos em nosso íntimo, aguardando a adoção de filhos, a redenção do nosso corpo" (Rm 8.23), não podemos nos esquecer dos seus poderosos efeitos no presente, que são registrados no início deste mesmo capítulo: "Agora, pois, já nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus. Porque a lei do Espírito da vida em Cristo Jesus te livrou da lei do pecado e da morte" (8.1-2). E as implicações desta redenção são santidade e inclinação para as coisas do Espírito Santo (v.4-8). Não fomos redimidos para vivermos "segundo a carne": "Porque, se viverdes segundo a carne, caminhais para a morte; mas, se pelo Espírito mortificardes os feitos do corpo, certamente vivereis."

Paulo afirma que a nossa justificação é mediante a redenção que há em Cristo Jesus (Rm 3.24). Não há como separar estes aspectos da Salvação. Paulo é enfático ao declarar que nossa redenção é libertação do pecado: "Mas graças a Deus porque, outrora escravos do pecado, contudo viestes a obedecer de coração à forma de doutrina a que fostes entregues; e, uma vez libertados do pecado, fostes feitos servos da justiça". O apóstolo nos exorta a vida de santidade, no tempo presente, como resultado de nossa redenção, visando a vida eterna: "Agora, porém, libertados do pecado, transformados em servos de Deus, tendes o vosso fruto para a santificação, e por fim a vida eterna" (6.22). "Como viveremos no pecado, nós os que para ele morremos?" (6.1). Para Paulo, quem "morreu" para o pecado é que está justificado dele (6.7). "Porque o pecado não terá domínio sobre vós; pois não estais debaixo da lei, e, sim, da graça" (6.14).

Concluo este ponto afirmando que Hodges falha em não atentar para esta "tão grande salvação" e suas implicações éticas. Falha em não perceber a interrelação e interdependência dos diversos aspectos da nossa salvação, nesse caso, em particular, da justificação e redenção. Começamos a perceber a necessidade de abandono do pecado, ou seja, necessidade de arrependimento. Isto não significa salvação pelas obras. Pois é a bondade de Deus que nos conduz ao arrependimento (2 Pe 3:9) e é "Ele quem opera em nós tanto o querer como o efetuar, segundo a Sua boa vontade" (Fl 2.14). Arrependimento e fé são a resposta do homem em relação ao dom gratuito da salvação de Deus. Se o fato do homem necessitar se arrepender, for considerado uma "obra", então a necessidade do homem de exercer fé, teria que ser considerada, igualmente, como tal.

1.2.2. JUSTIFICAÇÃO

Podemos definir a justificação como o ato sermos perdoados e recebidos pelo favor de Deus. "Ao que não trabalha, mas crê naquele que justifica o ímpio, a sua fé lhe é imputada para justiça" (Rm 4.5). John Wesley define a justificação da seguinte forma:

"A clara noção bíblica de justificação é o perdão de pecados. É o ato de deus Pai, pelo qual, em atenção à propiciação feita pelo sangue de seu Filho, 'mostra sua justiça (ou misericórdia), pela remissão dos pecados passados..." "Bem-aventurados aqueles cujas iniquidades são perdoadas e cujos pecados são cobertos: bem-aventurado é o homem a quem o Senhor não imputará pecado". Ao que é justificado ou perdoado, "Deus não imputará pecado" que acarrete sua condenação. Deus não o condenará por aquela razão, nem neste mundo, nem no mundo vindouro. Seus pecados, todos os seus pecados anteriores, - por pensamentos, palavras e obras, - são cobertos, são cancelados, não serão lembrados nem arguidos contra ele..." (10)

Não somos justificados através das obras da lei (Rm 3.20). A Justificação é por meio da fé (Rm 3.25; 5.1; Ef. 2.8-9). Isto não coloca de fora a necessidade de arrependimento e obediência, pois existe uma íntima relação entre os termos os verbos peitho (obedecer) e pistheo (crer). Além da estreita relação etimológica, são usados por Paulo, de tal maneira, que fica evidente que obediência é a consequência natural da fé: "... para a obediência por fé..." (Rm 1.5; 16.26). Muitas vezes obediência é usada como sinônimo de fé (Rm 6.17; Jo 3.36; At 6.7; Hb 5.9; 11.8). Paulo não concebe que alguém possa ter fé sem obediência: "No tocante a Deus professam conhecê-lo, entretanto o negam por suas obras, por isso que são abomináveis, desobedientes e reprovados para toda boa obra." (Tt 1.16).(11)

Paulo deixa claro em outra passagem a necessidade de arrependimento para a salvação: "Portanto a graça de Deus se manifestou salvadora a todos os homens, educando-nos para que, renegadas a impiedade e as paixões mundanas, vivamos no presente século, sensata, justa e piedosamente" (Tt 2:11-12). O que tem valor para Cristo é "a fé que atua pelo amor" (Gl 5.6) e não uma fé estéril. Repare que Paulo está falando a respeito da "justiça que provém fé" (Gl 5.5). A fé que justifica é a fé que opera pelo amor.

Hodges defende que arrependimento é importante para a comunhão do homem com Deus, mas que não é necessário para a justificação. No capítulo 5 da Epístola de Paulo aos Romanos, Paulo relaciona intimamente os termos justificados e reconciliados (v.9,10). Não vejo como possa haver reconciliação sem arrependimento!

Hodges diz ser possível alguém ser justificado sem demonstrar nenhuma evidência de sua experiência com Deus, ou seja sem frutificar. Isto não parece concordar com o ensino paulino de que "... o amor de Deus é derramado em nossos corações pelo Espírito Santo, que nos foi outorgado" (Rm 5.8). Paulo está tão certo disto que exorta aos Coríntios que façam um auto-exame para verificarem se realmente estão na fé (2 Co 13.5). Jesus disse: "Pelos seus frutos os conhecereis. Colhem-se, porventura, uvas dos espinheiros ou figos dos abrolhos?" (Mt 7.16). Fico pensando... "qual seria a resposta de Hodges à esta pergunta?" Em Jo 15, Jesus ensina que quem não der fruto será cortado da Videira, lançado fora e queimado.

Alguns estão pregando Cristo sem a cruz, o evangelho sem nenhum conseqüente requerimento, o perdão sem ao menos mencionar o arrependimento. Wesley alertou para o perigo do antinomianismo que induz as pessoas à um relaxamento moral.(12) Para ele, "fé penitente" continua sendo a única condição para que uma pessoa seja justificada, lembrando as palavras do Apóstolo Tiago: "Fé, se não tiver obras, por si só está morta" (Tg 2.17). Para Wesley, não há nenhum conflito entre Paulo e Tiago, pois enquanto Paulo fala daquela justificação que se deu com Abraão, quando ele tinha setenta e cinco anos, mais de vinte anos antes do nascimento de Isac (Rm 4.3), já Tiago se refere a justificação de Abraão no incidente da oferta de Isac (Tg 2.21). Enquanto Paulo trata da questão das obras que precedem a fé, Tiago discute a questão das obras em consequência da fé. Para Wesley nenhuma boa obra pode salvar independente da fé, mas toda genuína fé frutificará em boas obras (Ef. 2.8-10).(13)

1.2.3. REGENERAÇÃO

A regeneração, ou novo nascimento, é aquele aspecto da salvação onde o ser humano, através da poderosa ação do Espírito Santo de Deus, experimenta um renascimento interior. Jesus disse: "... se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus... Quem não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus" (Jo 3.3,5). A Enciclopédia Histórico Teológica da Igreja Cristã traz a seguinte definição:

A Bíblia concebe a salvação como a renovação redentora do homem, com base em um relacionamento restaurado com Deus em Cristo, e apresenta-a como algo que envolve "uma transformação radical e completa operada na alma (Rm 12.2; Ef 4.23) por Deus, o Espírito Santo (Tt 3.5; Ef 4.24), em virtude da qual nos tornamos 'novos homens' (Ef 4.24; Cl 3.10), já não conformamos com este mundo (Rm 12.2; Ef 4.22; Cl 3.9), mas no conhecimento e na santidade da verdade, criados segundo a imagem de Deus (Ef 4.24; Cl 3.10; Rm 12.2)" (B.B. Warfield: Biblical and Theological Studies - "Estudos Bíblicos e Teológicos", p. 351). A regeneração é o "nascimento" mediante o qual essa obra da nova criação é iniciada, assim como a santificação é o "crescimento" por meio do qual ela continua ( 1Pe 2.2; 2 Pe 3.18).(14)

Com a conhecidíssima passagem de 2 Co 5.17: "E assim, se alguém está em Cristo, é nova criatura: as coisas antigas já passaram; eis que se fizeram novas", Paulo demonstra as implicações do "estar em Cristo", ou seja, os desdobramentos da "reconciliação" (2 Co 5.17-21). Em outras palavras, todo aquele que foi justificado, foi também reconciliado, quem foi reconciliado "está em Cristo, é nova criatura", ou seja, foi também regenerado. Portanto, "nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus" (Rm 8.1), pois foram justificados; "Porque a lei do Espírito da vida em Cristo Jesus te livrou da lei do pecado e da morte", foram redimidos; "e uma vez libertos do pecado, foram feitos servos da justiça" (Rm 6.18), "Portanto os que estão na carne não podem agradar a Deus. Vós porém não estais na carne, mas no Espírito, se de fato o Espírito de Deus habita em vós. E se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dele." "Estar no Espírito" é o mesmo que "estar em Cristo". E aquele que "está em Cristo" é nascido do Espírito Santo de Deus, é uma nova criatura. Porque são novas criaturas "não andam segundo a carne" (Rm 8.4, 12), "as coisas velhas já passaram" (2 Co 5.17), "mas segundo o Espírito" (Rm 8.4, 5, 9, 13), "eis que tudo se fez novo" (2 Co 5.17). Todos estes aspéctos de nossa redenção estão interligados e são interdependentes. Um outro aspécto da salvação, que também está presente no capítulo oito de Romanos15 é o da "adoção": "Porque não recebestes o espírito de escravidão para viverdes outra vez atemorizados, mas recebestes o Espírito de adoção, baseados no qual clamamos: Aba, Pai. O próprio Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus."

Todos estes cinco aspectos da nossa "Tão Grande Salvação", Reconciliação, Redenção, Justificação, Regeneração e Adoção, são inseparáveis, ninguém pode ter um sem os outros, e se dão todos no instante da conversão, pela graça de Deus. Portanto "se viverdes segundo a carne, caminhais para a morte, mas se pelo Espírito mortificardes os feitos do corpo, certamente vivereis" (8.13). Quem foi justificado também foi redimido e regenerado para andar em novidade de vida, foi reconciliado como Deus e precisa saber que "o pendor da carne é inimizade contra Deus" (8.7) e que "o pendor da carne dá para a morte", por fim, precisa saber que fomos "predestinados para sermos conformes à imagem de Seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos" (8.29). Por esta razão é possível o cristão fazer uma auto-análise para verificar se está na fé (2 Co 13.5), pois existem claras evidências, como por exemplo: "Nós sabemos que já passamos da morte para a vida, porque amamos os irmãos; aquele que não ama permanece na morte." (1 Jo 3.14). Paulo ensinou que quando somos justificados (Rm 5.1), o amor de Deus é derramado no nosso coração pelo Espírito Santo que nos é outorgado no momento da justificação (5.8), e é por isto que João pode afirmar categoricamente: "Aquele que não ama não conhece a Deus, pois Deus é amor." O amor é o que nós poderíamos chamar de fruto digno do arrependimento (Mt 3.8). "Não há árvore boa que dê mau fruto" (Lc 6.43). O apóstolo Paulo adverte com veemência: "... Não vos enganeis: nem impuros, nem idólatras, nem adúlteros, nem efeminados, nem sodomitas, nem ladrões, nem avarentos, nem bêbados, nem maldizentes, nem roubadores herdarão o reino de Deus. Tais fostes alguns de vós; mas vós vos lavastes, mas fostes santificados, mas fostes justificados, em o nome do Senhor Jesus Cristo e no Espírito de nosso Deus" (1 Co 6.9; cf. Ef. 5.5; Ap 22.15). É preciso estar arrependido do pecado e renegar a impiedade e as paixões mundanas (Tt 2.12), pois o nosso Salvador deu-se a Si mesmo por nós para "remir-nos de toda iniqüidade e purificar para si mesmo um povo exclusivamente seu, zeloso de boas obras" (Tt 2.14; cf. Ef 1.4; 5.25-27). John Stott fala sobre a necessidade de Arrependimento:

É necessário, portanto, que verdadeiramente nos arrependamos, voltando as nossas costas com toda a resolução para toda e qualquer coisa que sabermos ser desagradável a ele. Não quero dizer com isso que devemos procurar melhorar em todos os sentidos antes que O convidemos a entrar. Pelo contrário, é justamente porque não podemos nos perdoar a nós mesmos ou melhorarmos nossa própria vida, que precisamos que Ele venha a nós. Entretanto, é necessário que estejamos desejosos que ele faça todo e qualquer arranjo que desejar quando Ele houver entrado. Não pode haver resistência alguma. É mister que nos entreguemos de modo absoluto e incondicional à soberania de Jesus Cristo. Não podemos estabelecer os nossos próprios termos. Que é que isso envolverá? Não posso dizer-lhe em detalhe o que seria. Em princípio, significa uma determinação para renunciar ao pecado e seguir a Cristo.(16)

Aproveitei neste bloco para falar sobre os demais aspectos da salvação, não achando necessário tratar de cada tópico isoladamente. Passo agora ao estudo do significado e propósito do batismo.

1.2.4. BATISMO

O batismo não era uma novidade nos tempos do Novo Testamento. Vários povos tinham suas purificações religiosas. Berkhof diz que estes rituais pagãos tinham muito pouco em comum com o nosso batismo cristão, mesmo em sua forma externa.(17) Entre os judeus, o chamado batismo dos prosélitos tinha maior semelhança com o batismo cristão. Os gentios para serem aceitos na religião judaica precisavam ser circuncidados e, na época de Jesus, necessitavam também serem batizados. Berkhof comenta:

"Contudo, parece que esse batismo também era uma espécie de lavamento cerimonial, um tanto semelhante a outras purificações. Às vezes se diz que o batismo de João foi derivado deste batismo de prosélitos, mas é mais que evidente que não foi este o caso. Seja qual for a relação histórica que possa ter existido entre os dois, é evidente que o batismo de João estava prenhe de significações novas e mais espirituais... acima de tudo, a diferença esta nisso -- que o batismo de João nunca poderia ser considerado uma simples cerimônia; todo ele fremia sempre de significação ética. Uma purificação do coração, do pecado, era não somente uma condição preliminar, mas seu constante objetivo e propósito." (18)

Qual seria a relação entre o batismo de João e o de Jesus? O Próprio João chamou à atenção para algumas diferenças: "Eu vos batizo com água para arrependimento; mas aquele que vem depois de mim é mais poderoso do que eu, cujas sandálias não sou digno de levar. Ele vos batizará com o Espírito Santo e com fogo" (Mt 3.11). Isto nos faz lembrar de uma das frases que Jesus disse a Nicodemus: "... Quem não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no Reino de Deus" (Jo 3.5). O elemento distintivo do batismo cristão é a "Promessa do Pai" (At 2.39), é o dom do Espírito Santo que regenera o homem (Tt 3.5), capacitando-o a viver a vida cristã e a ser testemunha de Cristo (At 1.8). A vida cristã é uma vida gerada pelo Espírito para ser vivida no poder deste mesmo Espírito: "Se vivemos pelo Espírito, andemos também no Espírito". É pelo Espírito Santo que somos habilitados a reconhecer e confessar que Jesus é Senhor (1 Co 12.1), e é também nele que os cristão são batizados no corpo de Cristo (1 Co 12.13). "Se alguém não tem o Espírito de Cristo, este tal não é dEle" (Rm 8.9). É o Espírito Santo que testifica como o nosso espírito que somos filhos de Deus (Rm 8.16; Gl 4.5-6). Para o Apóstolo Paulo, as expressões "estar em Cristo" e "estar no Espírito" são sinônimas (Rm 8.1,9,10), e também não vê nenhum problema em denominar o Espírito Santo de "Espírito de Deus" e de "Espírito de Cristo", isto no mesmo versículo (Rm 8.9). Sua concepção da trindade é bem desenvolvida. Não se pode separar Cristo do Espírito Santo. Quem recebe a Jesus, recebe o Espírito Santo, bem como o Pai. O batismo cristão é feito "em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo" (Mt 28.19). A Bíblia ensina que os cristão são templos do Espírito Santo (6.19). Jesus disse que os cristãos não ficariam órfãos (Jo 14.18), Ele disse que estaria sempre conosco até a consumação dos séculos (Mt 28.20). Jesus afirmou que o Pai e Ele viriam e fariam morada nos cristãos (Jo 14.23). Jesus cumpre a Sua promessa enviando o Consolador: "E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador, a fim de que esteja para sempre conosco" (Jo 14.16).

O batismo de Cristo é um batismo com o Espírito Santo e com fogo, o que o distinguia do batismo de João. Mas havia muitas similaridades como observa Berkhof:
O batismo de João, como o batismo cristão (a) foi instituído pelo próprio Deus, Mt 21.25; Jo 1.33; (b) estava relacionado com uma radical mudança de vida, Lc 1.1-17; Jo 1.20-30; (c) estava numa relação sacramental com o perdão dos pecados, Mt 3.7, 8; Mc 1.4; Lc 3.3 (comp. At. At 2.28) e (d) empregava o mesmo elemento material, qual seja, água. (19)


Qual seria o significado básico do Batismo? Bromiley diz que um indício do significado do batismo é oferecido por três figuras no AT:

O dilúvio (1 Pe 3.19-20), o Mar Vermelho (1Co 10.1-2) e a circuncisão (Cl 2.11-12). Todas estas figuras referem-se de modos diferentes à aliança divina, ao seu cumprimento provisório num ato divino de julgamento e de graça, e ao cumprimento vindouro e definitivo no batismo da cruz. A ligação entre água e a morte e a redenção é especialmente apropriada no caso das duas primeiras figuras; o aspécto de aliança é mais especificamente enfatizado na terceira. 20

Paulo diz que o batismo significa identificação com a morte e ressurreição de Cristo. Parece evocar a forma por imersão do batismo quando diz: "Fomos, pois, sepultados com Ele na morte pelo batismo; para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pela glória do Pai, assim também andemos nós em novidade de vida" (Rm 6.4). Imersão - morte; emersão - ressurreição. Paulo não deixa dúvidas a respeito das implicações éticas deste significado: "Sabendo isto, que foi crucificado com ele o nosso velho homem, para que o corpo do pecado seja destruído, e não sirvamos o pecado como escravos; porquanto quem morreu, justificado está do pecado... considerai-vos mortos para o pecado, mas vivos para Deus em Cristo Jesus. Não reine, portanto, o pecado em vosso corpo mortal, de maneira que obedeçais às suas paixões" (Rm 6.6,7,11,12).

Desta forma, não é de se estranhar que um dos pré-requesitos ao batismo seja o arrependimento: "... Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo para remissão dos vosso pecados, e recebereis o dom do Espírito Santo". O Batismo de João envolvia arrependimento e a diferença dele em relação ao de Cristo residia no dom do Espírito Santo. Pregar que para ingressar na vida cristã basta ter fé, não importando o arrependimento é corromper o ensino das Escrituras e deturpar o próprio significado do ritual de iniciação cristã. Não podemos esquecer que Jesus iniciou seu ministério conclamando as pessoas ao arrependimento (Mt 4.17). O próprio termo conversão implica em arrependimento (Mt 13.15; 18.3; Lc 1.16). Pedro relaciona arrependimento com conversão e os coloca como condição para a justificação:

"Arrependei-vos, pois, e convertei-vos para serem cancelados os vossos pecados".
Algumas passagens não mencionam o arrependimento, mas somente a fé como condição para salvação, outras mencionam apenas a necessidade do arrependimento. Hodges considera como normativas apenas as passagens onde a fé aparece como única condição desprezando as passagens que envolvem o arrependimento. Mas na verdade a Bíblia está ensinando que ambos são necessários para a obtenção da salvação. Quando um dos termos da salvação está omitido explicitamente, está embutido implicitamente.


2. PODE ALGUÉM SER CRISTÃO SEM SER DISCÍPULO?

Hodges afirma haver uma nítida distinção entre ser salvo e ser discípulo, concluindo que para ser salvo não é necessário ser discípulo. Carson percebe e comenta sobre o engano de Hodges:

"Mais difícil de ser isolada - e por esta razão mais perigosa - é a disjunção pressuposta e não expressa. Considere por exemplo a seguinte passagem de Zane C. Hodges:

É um erro interpretativo de primeira grandeza confundir os termos do discipulado com a oferta de vida eterna como um dom gratuito." ...e quem quiser receba de graça a água da vida"(Ap 22.17) é claramente um benefício incondicional. A passagem: "Se alguém vem a mim, e não... não pode ser meu discípulo" sem dúvida expressa uma relação totalmente condicional. Deixar de reconhecer esta simples distinção é provocar confusão e erros no nível mais fundamental.

De fato, não só neste parágrafo, mas também ao longo de todo o livro, Hodges pressupõe que há uma disjunção entre graça e exigência. ele nunca debate a possibilidade (a meu ver, a certeza absoluta) de que, em questões espirituais, graça e exigência não apresentam necessariamente incompatibilidade mútua: tudo depende de sua relações, propósitos, funções. O resultado dessa disjunção implícita no argumento de Hodges não é só o que em minha opinião é uma tese falsa - que a Bíblia ensina que uma pessoa pode ser eternamente salva mesmo sem qualquer vestígio de evidência disso em sua vida - mas também uma série de avaliações exegéticas e históricas extremamente problemáticas.(21)

Na Grande Comissão, registrada em Mt 28.18-20, Jesus nos dá a missão de fazermos discípulos de todas as nações. A pregação do Evangelho é um convite para ser discípulo de Jesus. O jovem rico queria saber o que precisava fazer para herdar a vida eterna (Mc 10.17), Jesus respondeu: "Só uma coisa te falta: Vai, vende tudo o que tens, dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu; então vem e segue-me" (Mc 10.21). Repare que a questão não é o que preciso fazer para ser discípulo, mas o que o rapaz precisaria fazer para herdar a vida eterna. Mesmo sendo esta a questão, a resposta de Jesus é uma apresentação do preço do discipulado, exige renúncia e também é um chamado para seguir. Jesus não parece fazer diferença alguma entre salvação e discipulado. Se as exigências do discipulado não se aplicassem a salvação, por que é que Jesus diria ser tão difícil para os ricos a entrada no Reino dos Céus? (Mc 10.23). Se fosse apenas uma questão de crer, que não implicasse arrependimento e renúncia, aquele jovem não teria se retirado triste. O Novo Testamento não parece fazer distinção entre crentes e discípulos (At 5.14 comp. 6.1, 7; ver também: 9.1, 10, 25-26, 38: 11.26, 19; 13.52; 14.20,22, 28; 15.10; 16.1, 18.23. "Nestas passagens, mathetes tem o sentido geral de 'cristão', alguém que crê em Jesus"22).

Em Mt 7.13-14, Jesus estabelece um nítido contraste entre a dificuldade do caminho da salvação e a facilidade do caminho da perdição. E, alguns versículos mais a frente, Ele adverte: "Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus" (v.21). Aos praticadores da iniqüidade Jesus dirá: "Apartai-vos de mim". Jesus compara aquele que ouve suas palavras mas não as pratica com um homem que construiu sua casa sobre a areia, tendo o seguinte resultado: "e caiu a chuva, transbordaram os rios, sopraram os ventos e deram com ímpeto contra aquela casa, e ela desabou, sendo grande a sua ruína" (v.27). Mais no início do Sermão do Monte, Jesus faz outra advertência: "Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder em muito a dos escribas e fariseus, jamais entrareis no reino dos céus" (5.20). Não podemos ignorar tais palavras que dizem respeito a nossa entrada no reino dos céus. Fé que não produz obras é infrutífera. D. Muller diz que para se entender o discipulado de Jesus é importante reconhecer que a chamada para ser discípulo sempre inclui a chamada ao serviço. 23

3. SUBMISSÃO AO SENHORIO DE CRISTO É INDISPENSÁVEL PARA A SALVAÇÃO?

Paulo é bem claro em afirmar a necessidade de confessar a Jesus como Senhor para ser salvo: "Se com a tua boca confessares a Jesus como Senhor, e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo." Confessar a Jesus como Senhor não é apenas mencionar um título, mas é, acima de tudo, o reconhecimento e a conseqüente submissão ao Seu senhorio.

Jesus disse: "Todo aquele que me confessar diante dos homens, também o Filho do homem o confessará diante dos anjos de Deus; mas o que me negar diante dos homens, será negado diante dos anjos de Deus". D. Muller comenta:

Estas palavras expressam toda promessa, e também os grandes perigos, do discipulado genuíno. É crucial a fidelidade do discípulo ao seu Senhor. (24)

Emílio Castro, falando sobre o tema "conversão", menciona uma afirmação do documento "Missão e Evangelização: Uma Afirmação Ecumênica":
A proclamação de (sic) Evangelho inclui um convite para que se reconheça e aceite, por meio de uma decisão pessoal, o senhorio de Cristo.25Castro, no final do seu artigo, diz algo simples, mas repleto de verdade: "A conversão sempre envolve a pergunta do apóstolo Paulo: 'Senhor, que devo fazer?"26 E ainda cita outra importante e elucidativa afirmação do documento já mencionado:


A conversão como um processo dinâmico e contínuo "implica um dar meia-volta de e um dar meia volta para. Sempre requer reconciliação, uma nova relação, tanto com Deus como com os demais. Implica um abandono de nossa antiga segurança (Mt 16.24) e um arriscar-se em uma vida de fé." É "conversão" de uma vida caracterizada pelo pecado, pela separação de Deus, pela submissão ao pecado e pelo potencial não realizado da imagem de Deus, para uma nova vida caracterizada pelo perdão dos pecados, pela obediência aos mandamentos de Deus, pela renovada comunhão com Deus na Trindade, o crescimento na restauração da imagem divina e a realização do amor de Cristo...(27)

Não podemos aceitar Jesus como Salvador e olvidá-lo como Senhor. Stott argumenta:

O valor da fé se acha integralmente representado em seu objeto (Jesus Cristo), não nela mesma. Contudo, a fé é um compromisso total de arrependimento e submissão a Cristo. Teria parecido inconcebível aos apóstolos alguém crer em Jesus como Salvador sem submeter-se a ele como Senhor. Não podemos partir Jesus Cristo em pedaços e depois responder somente a um dos pedaços. (28)

MacArthur é enfático quando afirma: "Ele é Senhor, e aqueles que o recusam como Senhor não podem usá-lo como Salvador"(29)

Paulo escrevendo ao cristãos romanos declarou: "nenhum de nós vive para si mesmo, nem morre para si. Porque se vivemos, para o Senhor vivemos; se morremos, para o Senhor morremos. Quer pois, vivamos ou morramos, somos do Senhor. Foi precisamente para esse fim que Cristo morreu e ressurgiu; para ser Senhor, tanto de mortos como de vivos" (14.7-9). Repare que Paulo inicia dizendo "nenhum de nós", indicando sua concepção de que todos os cristãos devem estar submissos ao senhorio de Cristo.

CONCLUSÃO.

Jesus veio para que nós tivéssemos "vida abundante" (Jo 10.10) e não apenas absolvição dos pecados. A salvação que Ele nos proporciona é muito rica em todos os seus aspectos, incluindo justificação, reconciliação, remissão, redenção e adoção, não podemos reduzi-la a um único aspecto. Compreendendo melhor a natureza de nossa salvação, fica mais fácil perceber suas implicações éticas, pois que envolve perdão, libertação do domínio do pecado, recebimento do dom do Espírito Santo que opera uma transformação radical no coração do homem, denominada de novo nascimento, visando conceder a capacidade para experimentar e viver a vida cristã abundante; e somos também feitos filhos de Deus. E a resposta necessária ao Evangelho é a conversão, que implica em arrependimento e fé, que são tanto um dever do homem (At 2.38; 17.30) como também um dom divino (At 11.18; Ef 2.8).
O batismo é a expressão exterior de nossa regeneração interior. Não basta ser nascido da água, é necessário nascer do Espírito de Deus. O batismo fala de nossa identificação com a morte e ressurreição de Cristo, onde morremos para o pecado e ressurgimos para uma nova vida.
O Evangelho é um chamado ao discipulado. Ser e fazer discípulos não é uma opção para o cristão. A porta e o caminho da salvação são estreitos e poucos são os que seguem por eles. Jesus nunca ocultou o preço do discipulado. Para ganhar a vida eterna é preciso renúncia.
Para ser salvo é necessário estar debaixo do senhorio de Cristo, pois não é possível ser insubmisso à Cristo e salvo ao mesmo tempo. A fé genuína redunda em obediência. Se o chamamos de Senhor precisamos fazer o que Ele nos ordena.

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1 Hodges, Zane C. Absolutely Free. Dallas, Texas, Redención Viva. 1989, pp. 25-27.
2 Ibid., (trad.: José Ildo Swartele de Mello), p. 145.
3 ibid., (trad.: José Ildo Swartele de Mello), p. 158.
4 ibid., p. 144.
5 ibid., p. 151.
6 Stott, J. R. W. Cristianismo Básico - O que Significa Ser um Verdadeiro Cristão. São Paulo - Vida Nova. 1991, p.86.
7 Brown, Colin & Coenen, Lothar. Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento. Trad.": Gordon Chown. São Paulo, Vida Nova. 1983. Volume IV, p. 80.
8 Stott, J. R. W. Cristianismo Básico - O que Significa Ser um Verdadeiro Cristão. São Paulo - Vida Nova. 1991, p. 94.
9 Ibid., p. 93.
10 Harrison, Wiliam P. (Notas Introdutórias, Esboços e Perguntas). Sermões - John Wesley". Trad.: Nicodemuos Nunes. S.Bernardo do Campo/SP. Imprensa Metodista. 1985, p. 113.
11 Erickson, Millard J. Evangelical Mind and Heart (extraído dos argumentos de McArthur) Grand Radpids: Baker Book House, 1993, p. 116.
12 Oden, Thomas C. John Wesley's Scriptural Christianity - A Plain Exposition of His Teaching on Christian Doctrine. Michigan. Zondervan Publishing House. 1994, p. 10
13 Ibid., p. 206.
14 Elwell, Walter A. (Editor). Enciclopédia Histórico Teológica da Igreja Cristã. Trad.: Gordon Chown. São Paulo, Vida Nova, 1990, Vol. III, p. 256.
15 Fiquei admirado ao descobrir que, em um único capítulo, Paulo aglutinou todos os aspéctos da salvação: Justificação (8.1, 30, 33 e 34); Reconciliação (8.1, 7-11, 31, 35-39); Redenção (8.2, 21-23); Regeneração (8.3-13) e Adoção (8.14-17). O Capítulo ainda fala sobre a Santificação (8.13, 29), Glorificação (8.17, 19-25, 30) e Propiciação (8.32,34). Não conheço nenhum capítulo tão rico em matéria de conteúdo teológico quanto este!
16 Stott, J. R. W. Cristianismo Básico - O que Significa Ser um Verdadeiro Cristão. São Paulo - Vida Nova. 1991, p. 151.
17 Berkhof, Louis. Teologia Sistemática. Trad.: Odayr Olivetti. Campinas: Luz Para o Caminho Publicações, 1990, p. 627.
18 Ibid., p. 628.
19 Ibid., pp. 628-629.
20 Elwell, Walter A. (Editor). Enciclopédia Histórico Teológica da Igreja Cristã. Trad.: Gordon Chown. São Paulo, Vida Nova, 1990, Vol. I, p. 149.
21 Carson, D. A. A Exegese e Sua Falácias - Perigos na Interpretação da Bíblia. Trad.: Valéria Fontana. São Paulo: Vida Nova. 1992, pp. 89, 90.
22 Brown, Colin & Coenen, Lothar. Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento. Trad.": Gordon Chown. São Paulo, Vida Nova. 1983, Vol. I, p. 667
25 Steuernagel, Valdir (Editor). A Serviço do Reino - Um Compêndio sobre a Missão Integral da Igreja. Belo Horizonte: Missão Editor, 1992, p. 273.
26 Ibid., p. 283.
27 Ibid., pp. 282-283.
28 Ibid., pp. 67-68.
29 MacArthur, Gospel According to Jesus, apud Erickson, Millard J. "Evangelical Mind and Heart" (extraído dos argumentos de McArthur) Grand Radpids: Baker Book House, 1993, p.117.


Bispo José Ildo Swartele de Mello
Casado com Ana Cristina, pai de três filhos: Samuel, Daniel e Rafael, é também Professor de Teologia, Escatologia e Evangelização na Faculdade Metodista Livre. Formado em Bacharel pela Faculdade Metodista Livre, cursou Mestrado em Teologia na Faculdade Teológica Batista de São Paulo e fez Doutorado em Ministério na Faculdade Teológica Sul Americana. Pastor desde 1986 (Cidade Ademar 86-88; Vila Guiomar 89; Vila Bonilha 90-97, Aeroporto 98-2004), serve atualmente como Pastor da Imel de Mirandópolis, como Bispo da Igreja Metodista Livre do Brasil e como presidente do Concílio Mundial de Bispos.
Para acompanhar e saber um poco mais sobre o Bispo Ildo Melo, sua trajetória e suas atividades na web acesse:
Bispo Ildo Mello na Internet.



sábado, 19 de fevereiro de 2011

Erro dos Pelagianos.

 Erro dos Pelagianos

 Luis de Molina (1535-1600)

12. O erro dos pelagianos surgiu nos tempos de Santo Agostinho, depois de que este escrevera os livros de seu De libero arbítrio e muitas outras obras insignes, como ele mesma atesta em suas Retractationes (lib. 1, cap. 9 (1)). Esse erro se opõe a verdade e a fé e era totalmente contrario ao dos maniqueus. Pois Pelágio e seus seguidores engrandeciam, mais do que o justo as forças do livre arbítrio, em detrimento a graça necessária para a nossa salvação. Sobretudo, afirmaram que nosso primeiro pai, quando pecou, só se prejudicou a si mesmo. Também sustentavam que todos os seus descendentes, nasceram exatamente iguais ao nosso primeiro pai quando criado por Deus antes de pecar, a saber, sem mancha alguma de pecado. Por essa razão, segundo eles, o livre arbítrio só, sem auxílio da graça se basta, não somente para crer nos artigos da fé, evitar todos os pecados, superar todas as paixões, vencer todas as tentações que podem desviar o passo durante todo o curso da vida e fazer-se digno da vida eterna, senão também para obter, através do arrependimento alcançado exclusivamente em virtude das forças do livre arbítrio, o perdão dos pecados, nisso crêem eles. Isto os levou a atribuir à graça de Deus, tão somente que o homem tivesse sido dotado com o livre arbítrio e com a faculdade de não pecar, do mesmo modo, que Deus tivesse introduzido sua Lei em nossas mentes, ou, igualmente, no-la tivesse proposto de palavra ou por escrito. Porém em relação aos pecados já cometidos, certamente atribuíam a própria graça seu perdão e condenação; não obstante, criam que o homem só podia fazer-se merecedor desse perdão através do arrependimento obtido em virtude das forças de seu livre arbítrio. Por este motivo, pensavam que o livre arbítrio somente, sem outro auxílio da graça, se basta para alcançar a salvação, como atestavam muitos autores, entre eles, sobretudo, Santo Agostinho (heresia 88(2) e Epístola 106 ad Paulinum (3)) e também os pais dos concílios de Cartago e de Milão(4) e cartas do Papa Inocencio I, que aparecemen no primeiro tomo dos Concilios (5) (antecedendo as cartas 15 e 16 de Inocencio I), e nas Epistolae (t. 2, cc. 90, 92(6)) de Santo Agustinho. Contra este erro Santo Agostinho escreveu De natura et gratia (7).

Tradução do espanhol: Lailson Castanha
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(1) Cfr. n. 3ss; PL 32, 595ss.
(2) PL 42, 47ss.
(3) Ep. 186 (al. 106); PL 33, 815-832.
(4) Mansi 4, 321-324, 334-336.
(5) Lorenzo Surius, Tomus primus conciliorum omnium, tum generalium, tum provincialium atque
particularium, Coloniae 1567.
(6) Ep. 175 (al. 90) y Ep.
(7) PL 44, 247ss.


MOLINA, Luis de.Concordia del libre arbítrio. Traducción de Juan Antonio Hevia Echevarría de Luis de Molina,Biblioteca Filosofía en español, Fundación Gustavo Bueno, Oviedo 2007.
Parte primera Sobre las fuerzas del libre arbitrio para obrar el bien.
Comentarios al artículo 13 de la misma cuestión 14
Disputa I
Sobre los errores acerca de la presciencia divina,
nuestro libre arbitrio y la contingencia de las cosas


terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Teologia relevante.

Teologia relevante.

Pesquisando sobre a obra teológica de Jacobus Arminius, me deparei em uma de suas teses expostas, com um lindo exemplo de praxis teológica, unida a atitude de fé e humildade.
Depois de comentar sobre seu entendimento a respeito da glória de Deus, o teólogo holandês, findando sua argumentação, faz o seguinte convite aos que se deparam com a sua argumentação:


“(...)Mas, cessando de qualquer *discussão mais prolixa desse assunto, deixemo-nos com ardentes orações suplicantes, rogando ao Deus de Glória, que, uma vez que Ele nos formou para a sua glória, Ele nos faça, ainda mais e mais, instrumentos de demonstrar sua Glória entre os homens, por Cristo Jesus, nosso Senhor, o esplendor da sua glória, e a expressa a imagem de sua Pessoa.”(1)

Essa é uma linda lição aos teóricos do pensamento teológico.

É muito difícil, em quase todas as áreas do conhecimento especulativo, encontrar teóricos que conseguem unir teoria e prática. No estudo teológico essa deficiência é também percebida. Fala-se sobre Deus, teoriza-se sobre o Altíssimo, sobre conceitos ligados a fé, porém, geralmente, na prática, a emprêsa teológica pouco produz. Nem sempre, ou quase nunca, o maior aprofundamento teórico sobre as coisas de Deus, produz, naquele que teoriza -, tremor e temor. Das idéias apreendidas no estudo teológico, poucas coisas são levadas em consideração, levando aquele que conjectura, refletir sobre as implicações que aquelas idéias absorvidas lhe exigirão.

Diferentemente de muitos teólogos academicistas, a atitude de Jacobus Arminius é exemplar. Depois de conjecturar sobre a glória de Deus, levando o assunto a sério, o teólogo, também conhecido por James Arminius, ou Tiago Arminio, assumiu a necessidade premente de clamar a Deus, para que sua glória – assunto que fora abordado na controvérsia - seja percebida em sua vida, a fim de que, com isso, os homens possam percebê-la, e assim, também, possam glorificar o Senhor da Glória.

Com essa atitude, mesmo que indiretamente, o teólogo holandês nos deixa uma lição: O Estudo Teológico jamais pode ser um fim em si mesmo, pelo contrário, deve levar aquele que estuda a uma viva reflexão, com a finalidade de, em conexão com as ideias absorvidas, engendrar ação. Assim como a fé sem obras é morta, teoria, ou, teologia sem reflexão, sem motivação, sem ação, sem reação prática não tem nenhum valor real, a não ser, amontoar e apresentar informações irrelevantes para as pessoas, que por sua vez, buscam respostas relevantes para questões pertinentes – sobre Deus, as Escrituras, a fé e suas implicações.

Teologia relevante é aquela que faz o teórico, o estudante, o professor, o clérigo, ou qualquer pessoa que de suas teorias se apropria, se posicionar diante do mundo, em consonância com as ideias dela apreendidas, ou, que provoque aquele ou aquela que se dela se aproxima, a uma tomada de posição, a uma atitude coerente em relação as coisas que, através do estudo teológico são lhes apresentadas.

Se com Sócrates, a filosofia ensinou o homem a se apequenar, porque diante da totalidade do real ele nada sabe - a teologia deve ensinar o homem a se colocar na posição de humildade, pois, diante da grandeza de Deus, tão precariamente estudado e teorizado pelo limitado e falível estudo teológico, ele nada é em si mesmo; só é alguém quando acolhe sua vocação originária de glorificar a Deus.
Se nada somos, devemos, juntamente, ou a exemplo de Jacobus Arminius, “com ardentes corações suplicantes” rogar “ao Deus de Glória, que, uma vez que Ele nos formou para a sua glória, Ele nos faça, ainda mais e mais, instrumentos de demonstrar sua Glória entre os homens, por Cristo Jesus, nosso Senhor, o esplendor da sua glória, e a expressa a imagem de sua Pessoa.”(2)

Lailson Castanha
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(1) The Works of James Arminius, Vol. 1
(2) Ibid.
http://wesley.nnu.edu/arminianism/the-works-of-james-arminius/public-disputations-james-arminius-dd-dedication/
* “discussão mais prolixa desse assunto.” - Quando Jacobus Arminius pronunciou essa assertiva estava a dissertar teologicamente sobre a glória de Deus
Gravura: Santiago em Oração de Rembrandt - (15 de julho de 1606 — 4 de outubro de 1669)


domingo, 16 de janeiro de 2011

A Glória de Deus.

A Glória de Deus.

Jacobus Arminius

92. A glória de Deus é de sua perfeição, considerada extrinsicamente, e pode, em algum grau, ser descrita assim: é a excelência de Deus acima de todas as coisas. Deus manifesta essa glória através de atos externos, de várias maneiras. (Romanos 1.23, 9.4; Salmos 8.1).

93. Mas os modos de manifestação, que nos são declarados nas Escrituras, são essencialmente dois: um, por um resplendor de luz e de raro esplendor, ou pelo seu oposto, uma densa escuridão ou obscuridade. (Mateus 17:2-5, Lucas 02.09; Êxodo 16.10; 1 Reis 08.11). O outro, pela produção de obras que concordam com Sua perfeição e excelência. (Salmos 19.1; João 2.11). Mas, cessando de qualquer discussão mais prolixa desse assunto, deixemo-nos com ardentes orações suplicantes, rogando ao Deus de Glória, que, uma vez que Ele nos formou para a sua glória, Ele nos faça, ainda mais e mais, instrumentos de demonstrar sua Glória entre os homens, por Cristo Jesus, nosso Senhor, o esplendor da sua glória, e a expressa a imagem de sua Pessoa.

Tradução: Lailson Castanha
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The Works of James Arminius, Vol. 1
http://wesley.nnu.edu/arminianism/the-works-of-james-arminius/public-disputations-james-arminius-dd-dedication/
Gravura: Moisés e a Sarça Ardente de Grabriel Castanha

sábado, 8 de janeiro de 2011

Os desígnios de Deus e a obstinação do homem.

Os desígnios de Deus e a obstinação do homem.

Muito se tem falado a respeito dos desígnios de Deus para com os homens. Nas discussões a esse respeito conjectura-se positivamente ou negativamente a respeito de conceitos como soberania de Deus, alteridade, livre arbítrio e predestinação e determinismo. É muito raro em uma discussão sobre os desígnio de Deus a ausência dos conceitos que foram destacados.

Quando falamos em desígnios não podemos fugir algumas indagações investigativas, como, e por exemplo: tudo o que acontece conosco, positivamente foi um desígnio de Deus? Em outras palavras podemos indagar: tudo o que acontece, é fruto de uma vontade positiva de Deus? Ou mesmo: - alguns eventos ocorrem por Sua permissão e nem sempre por sua determinação intencionalmente positiva? - Tudo que nos ocorre, é fruto de uma intencionalidade direta de Deus, ou, sua soberania não implica um intenso controle direto sobre todos os eventos? - ou também: o homem pode ser responsabilizado diretamente por alguns eventos que ocorrem em sua existência ou através ou mesmo a partir dela, ou tudo o que acontece tem que ser apresentado como vontade positiva e intencional de Deus?

Na medida em que essas indagações, que se manifestam de várias formas, forem respondidas, configurar-se-á então, a maneira que consideraremos Deus e o seu caráter, a forma em que interpretamos os eventos que ocorrem em nossa existência e a forma que devemos nos posicionar diante dos acontecimentos que se nos apresentam, e a maneira que julgaremos as nossas intenções e ações. É certo que, se buscarmos respostas sobre questões transcendentes usando apenas ferramentas existenciais, nosso intento não terá êxito – por conta da limitação do alcance que a ferramenta que usamos alcançará. Temos que, além de nossas ferramentas existenciais, nos apropriarmos da revelação escriturística, procurar entender, o que ela tem a nos dizer a esse respeito.

Lendo os Salmos 81 percebe-se claramente insights reveladores sobre a questão que estamos a destacar. Lendo esse texto, o anuviado problema do desígnio de Deus/responsabilidade do homem é iluminado. Nesse Salmo, depois de uma série de convocações e lembranças das coisas que Deus houvera feito a favor de Israel, o salmista omite a sua voz, e dá a sua escrita, livre e direto curso à voz de Deus:

Ouve, povo meu, quero exortar-te. Ó Israel, se me escutasses!
Não haja no meio de ti deus alheio, nem te prostres ante deus estranho.
Eu sou o SENHOR, teu Deus, que te tirei da terra do Egito. Abre bem a boca, e ta encherei.
Mas o meu povo não me quis escutar a voz, e Israel não me atendeu.
Assim, deixei-o andar na teimosia do seu coração; siga os seus próprios conselhos.
Ah! Se o meu povo me escutasse, se Israel andasse nos meus caminhos!
Eu, de pronto, lhe abateria o inimigo e deitaria mão contra os seus adversários.
Os que aborrecem ao SENHOR se lhe submeteriam, e isto duraria para sempre
Eu o sustentaria com o trigo mais fino e o saciaria com o mel que escorre da rocha.(Sl 81. 8-16)


Observando esses versos percebemos que Deus apesar de preceituar algumas regras para o seu povo, desejando que as tais fossem observadas, não estabeleceu os seus bons preceitos de maneira irresistível. Deus colocou sobre o homem a responsabilidade de observá-los, de cumpri-los.

Ó Israel, se me escutasses! - Nesse verso percebe-se a expressão plangente de Deus por conta da falta atenção de Israel para com os seus conselhos. Após lamentar a conduta obstinada de seu povo, Deus continuou a afirmar sobre o seu povo, ainda em tom lamentoso:

“(…) Mas o meu povo não me quis escutar a voz, e Israel não me atendeu.”

Se atentarmos para essa expressão, podemos perceber a liberdade que Deus dá aos homens entre seguir ou não seguir os seus desígnios, apesar de desejar que sua vontade seja cumprida. Desse exemplo, podemos tirar pelo menos uma importante conclusão: nem sempre os desígnios de Deus para com os homens são colocados como decretos inelutáveis.
Depois de resolvida uma parte do problema, a saber, se os desígnios de Deus são irresistivelmente estabelecidos, que pelo texto, tivemos a liberdade de crer que nem sempre o que Deus deseja diretamente acontece, continua em aberto, a questão da responsabilidade do homem, problematizada na seguinte indagação: o homem pode ser responsabilizado diretamente por alguns eventos que ocorrem em sua existência ou através ou mesmo a partir dela?


Recorrendo novamente ao texto, somos levados, mesmo que de maneira indireta, a resposta:

Ah! Se o meu povo me escutasse, se Israel andasse nos meus caminhos!
Eu, de pronto, lhe abateria o inimigo e deitaria mão contra os seus adversários.
Os que aborrecem ao SENHOR se lhe submeteriam, e isto duraria para sempre
Eu o sustentaria com o trigo mais fino e o saciaria com o mel que escorre da rocha.


No do conectivo condicional “se”, o texto indica-nos a realidade das possibilidades. Ou seja, para Israel, existia uma possibilidade existencial diferente daquela em que esse povo passou a vivenciar, caso obedecesse ao seu Deus. Essa possibilidade era o que Deus desejou e desejava.

Quando no texto, em nome de Deus é usado o conectivo condicional, afirmando que certos eventos ocorreriam “se” o povo de Israel escutasse a voz de Deus e andasse em seus caminhos, são nos dado a liberdade de crer que algumas coisas deixaram ou deixam de ocorrer por conta de alguns posicionamentos ou posturas humanas. No texto em destaque, por conta da obstinação de Israel em seguir suas próprias ideias, não atentando para os conselhos de Deus, seguindo os caminhos que Deus não desejava que eles seguissem, Israel deixou de vivenciar as benesses que Deus desejou que vivenciasse.

Se alguns eventos deixam de acontecer por consequência de uma determinada postura, segue-se que, outros eventos substituintes ocorrerão. Outrossim, quando fugimos da vontade de Deus, deixamos de herdar o bem que ele preparou para os que o seguem, portanto somos responsáveis por boa parte de eventos negativos que ocorrem em nossa existência, através ou a partir dela. Somos responsáveis porque, por nossa livre escolha, deixamos de atentar para os desígnios de Deus. Só somos efetivamente responsáveis pelas consequências de nossas escolhas, porque somos livres para fazer escolhas autênticas. Se não fossemos livres para praticarmos tais escolhas, não seríamos efetivamente responsáveis por suas consequências.

A mesma implicação se dá em relação ao nosso galardão A responsabilidade humana não diminui ante o chamado à salvação. Sobre essa questão, o apóstolo Paulo nos direciona a ideia de que somos responsáveis em nos qualificarmos diante de Deus, de que temos que nos esforçar para alcançar o galardão, ao contrário do que muita gente defende de que o chamado à salvação dispensa a resposta ou ação efetivamente humana, vejamos:

Não sabeis vós que os que correm no estádio, todos, na verdade, correm, mas um só leva o prêmio? Correi de tal maneira que o alcanceis.
Todo atleta em tudo se domina; aqueles, para alcançar uma coroa corruptível; nós, porém, a incorruptível.
Assim corro também eu, não sem meta; assim luto, não como desferindo golpes no ar.
Mas esmurro o meu corpo e o reduzo à escravidão, para que, tendo pregado a outros, não venha eu mesmo a ser desqualificado. (1Co 9.24-27)


Como se pode perceber, Paulo destaca o seu esforço, como uma atitude que tinha como finalidade garantir a sua qualificação. Destaca sua responsabilidade em se mostrar qualificado.
Seguindo a mesma temática da responsabilidade humana, o apóstolo Paulo narra à peregrinação do povo israelita no deserto. No decorrer da narração, falando sobre o povo de Israel, o apóstolo afirma:


“nossos pais estiveram todos debaixo da nuvem, e todos passaram pelo mar,
e todos foram batizados em Moisés, na nuvem e no mar,
e todos comeram de uma mesma comida espiritual,
e beberam todos de uma mesma bebida espiritual, porque bebiam da pedra espiritual que os seguia; e a pedra era Cristo.
Mas Deus não se agradou da maior parte deles, por isso foram prostrados no deserto.” (1 Co 10.1-5).


Na narração do apóstolo Paulo, percebe-se claramente a realidade do povo de Israel. Esse povo andou com Deus, recebeu as bênçãos de Deus. Porém, outra evidência se mostra de maneira trágica: Deus não se agradou desse povo.
Continuando a falar, o apóstolo indica aos destinatários de sua epístola, porque que o povo de Israel foi rejeitado por Deus e por conseguinte, foram prostrados no deserto. Disse o apóstolo:


E estas coisas foram-nos feitas em figura, para que não cobicemos as coisas más, como eles cobiçaram.(1 Co 10. 6).

Falando nesses termos, o apóstolo estava a destacar a responsabilidade humana ante a eleição da igreja e a consequente e definitiva salvação do homem. Devemos olhar para a tragédia de Israel e com isso aprender que temos responsabilidades reais em relação ao chamado de Deus.

Ser participante do povo Eleito ou da igreja Eleita não nos exime da responsabilidade e esforço para sermos achados dignos de Deus. A salvação é pela graça. Pela graça podemos nos postar diante de Deus em condição aceitável. A graça nos dá as condições - nos oferece os meios, as ferramentas que nos possibilita postarmo-nos de maneira adequada. Oferecer os meios não significa, portanto eximir-nos da responsabilidade de usar as ferramentas que a graça nos dispôs. Se não usarmos as ferramentas da graça cairemos. Portanto é de nossa total responsabilidade o uso dos meios que a graça nos dispôs a fim de que fiquemos em pé.

“No demais, irmãos meus, fortalecei-vos no Senhor e na força do seu poder.
Revesti-vos de toda a armadura de Deus, para que possais estar firmes contra as astutas ciladas do diabo.
Porque não temos que lutar contra a carne e o sangue, mas, sim, contra os principados, contra as potestades, contra os príncipes das trevas deste século, contra as hostes espirituais da maldade, nos lugares celestiais.
Estai, pois, firmes, tendo cingidos os vossos lombos com a verdade, e vestida a couraça da justiça;
E calçados os pés na preparação do evangelho da paz;
Tomando sobretudo o escudo da fé, com o qual podereis apagar todos os dardos inflamados do maligno.
Tomai também o capacete da salvação, e a espada do Espírito, que é a palavra de Deus;
Orando em todo o tempo com toda a oração e súplica no Espírito, e vigiando nisto com toda a perseverança e súplica por todos os santos(...).” (Ef 6.10-18).


Lailson Castanha
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Gravura: Adão e Eva expulsos do Éden de Gustave Doré (1832-1883)

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Como Jacobus Arminius acredito que: "As Escrituras são a regra de toda a verdade divina, de si, em si, e por si mesmas.[...] Nenhum escrito composto por Homens, seja um, alguns ou muitos indivìduos à exceção das Sagradas Escrituras[...] está isento de um exame a ser instituído pelas Escrituras. É tirania, papismo, controlar a mente dos homens com escritos humanos e impedir que sejam legitimamente examinados, seja qual for o pretexto adotado para a tal conduta tirânica." (Jacobus Arminius) - Contato: lailsoncastanha@yahoo.com.br

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