Ideário arminiano. Abordagens sobre a teologia clássica de Jacó Armínio: suas similaridades, vertentes, ambivalências e divergências.

domingo, 16 de janeiro de 2011

A Glória de Deus.

A Glória de Deus.

Jacobus Arminius

92. A glória de Deus é de sua perfeição, considerada extrinsicamente, e pode, em algum grau, ser descrita assim: é a excelência de Deus acima de todas as coisas. Deus manifesta essa glória através de atos externos, de várias maneiras. (Romanos 1.23, 9.4; Salmos 8.1).

93. Mas os modos de manifestação, que nos são declarados nas Escrituras, são essencialmente dois: um, por um resplendor de luz e de raro esplendor, ou pelo seu oposto, uma densa escuridão ou obscuridade. (Mateus 17:2-5, Lucas 02.09; Êxodo 16.10; 1 Reis 08.11). O outro, pela produção de obras que concordam com Sua perfeição e excelência. (Salmos 19.1; João 2.11). Mas, cessando de qualquer discussão mais prolixa desse assunto, deixemo-nos com ardentes orações suplicantes, rogando ao Deus de Glória, que, uma vez que Ele nos formou para a sua glória, Ele nos faça, ainda mais e mais, instrumentos de demonstrar sua Glória entre os homens, por Cristo Jesus, nosso Senhor, o esplendor da sua glória, e a expressa a imagem de sua Pessoa.

Tradução: Lailson Castanha
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The Works of James Arminius, Vol. 1
http://wesley.nnu.edu/arminianism/the-works-of-james-arminius/public-disputations-james-arminius-dd-dedication/
Gravura: Moisés e a Sarça Ardente de Grabriel Castanha

sábado, 8 de janeiro de 2011

Os desígnios de Deus e a obstinação do homem.

Os desígnios de Deus e a obstinação do homem.

Muito se tem falado a respeito dos desígnios de Deus para com os homens. Nas discussões a esse respeito conjectura-se positivamente ou negativamente a respeito de conceitos como soberania de Deus, alteridade, livre arbítrio e predestinação e determinismo. É muito raro em uma discussão sobre os desígnio de Deus a ausência dos conceitos que foram destacados.

Quando falamos em desígnios não podemos fugir algumas indagações investigativas, como, e por exemplo: tudo o que acontece conosco, positivamente foi um desígnio de Deus? Em outras palavras podemos indagar: tudo o que acontece, é fruto de uma vontade positiva de Deus? Ou mesmo: - alguns eventos ocorrem por Sua permissão e nem sempre por sua determinação intencionalmente positiva? - Tudo que nos ocorre, é fruto de uma intencionalidade direta de Deus, ou, sua soberania não implica um intenso controle direto sobre todos os eventos? - ou também: o homem pode ser responsabilizado diretamente por alguns eventos que ocorrem em sua existência ou através ou mesmo a partir dela, ou tudo o que acontece tem que ser apresentado como vontade positiva e intencional de Deus?

Na medida em que essas indagações, que se manifestam de várias formas, forem respondidas, configurar-se-á então, a maneira que consideraremos Deus e o seu caráter, a forma em que interpretamos os eventos que ocorrem em nossa existência e a forma que devemos nos posicionar diante dos acontecimentos que se nos apresentam, e a maneira que julgaremos as nossas intenções e ações. É certo que, se buscarmos respostas sobre questões transcendentes usando apenas ferramentas existenciais, nosso intento não terá êxito – por conta da limitação do alcance que a ferramenta que usamos alcançará. Temos que, além de nossas ferramentas existenciais, nos apropriarmos da revelação escriturística, procurar entender, o que ela tem a nos dizer a esse respeito.

Lendo os Salmos 81 percebe-se claramente insights reveladores sobre a questão que estamos a destacar. Lendo esse texto, o anuviado problema do desígnio de Deus/responsabilidade do homem é iluminado. Nesse Salmo, depois de uma série de convocações e lembranças das coisas que Deus houvera feito a favor de Israel, o salmista omite a sua voz, e dá a sua escrita, livre e direto curso à voz de Deus:

Ouve, povo meu, quero exortar-te. Ó Israel, se me escutasses!
Não haja no meio de ti deus alheio, nem te prostres ante deus estranho.
Eu sou o SENHOR, teu Deus, que te tirei da terra do Egito. Abre bem a boca, e ta encherei.
Mas o meu povo não me quis escutar a voz, e Israel não me atendeu.
Assim, deixei-o andar na teimosia do seu coração; siga os seus próprios conselhos.
Ah! Se o meu povo me escutasse, se Israel andasse nos meus caminhos!
Eu, de pronto, lhe abateria o inimigo e deitaria mão contra os seus adversários.
Os que aborrecem ao SENHOR se lhe submeteriam, e isto duraria para sempre
Eu o sustentaria com o trigo mais fino e o saciaria com o mel que escorre da rocha.(Sl 81. 8-16)


Observando esses versos percebemos que Deus apesar de preceituar algumas regras para o seu povo, desejando que as tais fossem observadas, não estabeleceu os seus bons preceitos de maneira irresistível. Deus colocou sobre o homem a responsabilidade de observá-los, de cumpri-los.

Ó Israel, se me escutasses! - Nesse verso percebe-se a expressão plangente de Deus por conta da falta atenção de Israel para com os seus conselhos. Após lamentar a conduta obstinada de seu povo, Deus continuou a afirmar sobre o seu povo, ainda em tom lamentoso:

“(…) Mas o meu povo não me quis escutar a voz, e Israel não me atendeu.”

Se atentarmos para essa expressão, podemos perceber a liberdade que Deus dá aos homens entre seguir ou não seguir os seus desígnios, apesar de desejar que sua vontade seja cumprida. Desse exemplo, podemos tirar pelo menos uma importante conclusão: nem sempre os desígnios de Deus para com os homens são colocados como decretos inelutáveis.
Depois de resolvida uma parte do problema, a saber, se os desígnios de Deus são irresistivelmente estabelecidos, que pelo texto, tivemos a liberdade de crer que nem sempre o que Deus deseja diretamente acontece, continua em aberto, a questão da responsabilidade do homem, problematizada na seguinte indagação: o homem pode ser responsabilizado diretamente por alguns eventos que ocorrem em sua existência ou através ou mesmo a partir dela?


Recorrendo novamente ao texto, somos levados, mesmo que de maneira indireta, a resposta:

Ah! Se o meu povo me escutasse, se Israel andasse nos meus caminhos!
Eu, de pronto, lhe abateria o inimigo e deitaria mão contra os seus adversários.
Os que aborrecem ao SENHOR se lhe submeteriam, e isto duraria para sempre
Eu o sustentaria com o trigo mais fino e o saciaria com o mel que escorre da rocha.


No do conectivo condicional “se”, o texto indica-nos a realidade das possibilidades. Ou seja, para Israel, existia uma possibilidade existencial diferente daquela em que esse povo passou a vivenciar, caso obedecesse ao seu Deus. Essa possibilidade era o que Deus desejou e desejava.

Quando no texto, em nome de Deus é usado o conectivo condicional, afirmando que certos eventos ocorreriam “se” o povo de Israel escutasse a voz de Deus e andasse em seus caminhos, são nos dado a liberdade de crer que algumas coisas deixaram ou deixam de ocorrer por conta de alguns posicionamentos ou posturas humanas. No texto em destaque, por conta da obstinação de Israel em seguir suas próprias ideias, não atentando para os conselhos de Deus, seguindo os caminhos que Deus não desejava que eles seguissem, Israel deixou de vivenciar as benesses que Deus desejou que vivenciasse.

Se alguns eventos deixam de acontecer por consequência de uma determinada postura, segue-se que, outros eventos substituintes ocorrerão. Outrossim, quando fugimos da vontade de Deus, deixamos de herdar o bem que ele preparou para os que o seguem, portanto somos responsáveis por boa parte de eventos negativos que ocorrem em nossa existência, através ou a partir dela. Somos responsáveis porque, por nossa livre escolha, deixamos de atentar para os desígnios de Deus. Só somos efetivamente responsáveis pelas consequências de nossas escolhas, porque somos livres para fazer escolhas autênticas. Se não fossemos livres para praticarmos tais escolhas, não seríamos efetivamente responsáveis por suas consequências.

A mesma implicação se dá em relação ao nosso galardão A responsabilidade humana não diminui ante o chamado à salvação. Sobre essa questão, o apóstolo Paulo nos direciona a ideia de que somos responsáveis em nos qualificarmos diante de Deus, de que temos que nos esforçar para alcançar o galardão, ao contrário do que muita gente defende de que o chamado à salvação dispensa a resposta ou ação efetivamente humana, vejamos:

Não sabeis vós que os que correm no estádio, todos, na verdade, correm, mas um só leva o prêmio? Correi de tal maneira que o alcanceis.
Todo atleta em tudo se domina; aqueles, para alcançar uma coroa corruptível; nós, porém, a incorruptível.
Assim corro também eu, não sem meta; assim luto, não como desferindo golpes no ar.
Mas esmurro o meu corpo e o reduzo à escravidão, para que, tendo pregado a outros, não venha eu mesmo a ser desqualificado. (1Co 9.24-27)


Como se pode perceber, Paulo destaca o seu esforço, como uma atitude que tinha como finalidade garantir a sua qualificação. Destaca sua responsabilidade em se mostrar qualificado.
Seguindo a mesma temática da responsabilidade humana, o apóstolo Paulo narra à peregrinação do povo israelita no deserto. No decorrer da narração, falando sobre o povo de Israel, o apóstolo afirma:


“nossos pais estiveram todos debaixo da nuvem, e todos passaram pelo mar,
e todos foram batizados em Moisés, na nuvem e no mar,
e todos comeram de uma mesma comida espiritual,
e beberam todos de uma mesma bebida espiritual, porque bebiam da pedra espiritual que os seguia; e a pedra era Cristo.
Mas Deus não se agradou da maior parte deles, por isso foram prostrados no deserto.” (1 Co 10.1-5).


Na narração do apóstolo Paulo, percebe-se claramente a realidade do povo de Israel. Esse povo andou com Deus, recebeu as bênçãos de Deus. Porém, outra evidência se mostra de maneira trágica: Deus não se agradou desse povo.
Continuando a falar, o apóstolo indica aos destinatários de sua epístola, porque que o povo de Israel foi rejeitado por Deus e por conseguinte, foram prostrados no deserto. Disse o apóstolo:


E estas coisas foram-nos feitas em figura, para que não cobicemos as coisas más, como eles cobiçaram.(1 Co 10. 6).

Falando nesses termos, o apóstolo estava a destacar a responsabilidade humana ante a eleição da igreja e a consequente e definitiva salvação do homem. Devemos olhar para a tragédia de Israel e com isso aprender que temos responsabilidades reais em relação ao chamado de Deus.

Ser participante do povo Eleito ou da igreja Eleita não nos exime da responsabilidade e esforço para sermos achados dignos de Deus. A salvação é pela graça. Pela graça podemos nos postar diante de Deus em condição aceitável. A graça nos dá as condições - nos oferece os meios, as ferramentas que nos possibilita postarmo-nos de maneira adequada. Oferecer os meios não significa, portanto eximir-nos da responsabilidade de usar as ferramentas que a graça nos dispôs. Se não usarmos as ferramentas da graça cairemos. Portanto é de nossa total responsabilidade o uso dos meios que a graça nos dispôs a fim de que fiquemos em pé.

“No demais, irmãos meus, fortalecei-vos no Senhor e na força do seu poder.
Revesti-vos de toda a armadura de Deus, para que possais estar firmes contra as astutas ciladas do diabo.
Porque não temos que lutar contra a carne e o sangue, mas, sim, contra os principados, contra as potestades, contra os príncipes das trevas deste século, contra as hostes espirituais da maldade, nos lugares celestiais.
Estai, pois, firmes, tendo cingidos os vossos lombos com a verdade, e vestida a couraça da justiça;
E calçados os pés na preparação do evangelho da paz;
Tomando sobretudo o escudo da fé, com o qual podereis apagar todos os dardos inflamados do maligno.
Tomai também o capacete da salvação, e a espada do Espírito, que é a palavra de Deus;
Orando em todo o tempo com toda a oração e súplica no Espírito, e vigiando nisto com toda a perseverança e súplica por todos os santos(...).” (Ef 6.10-18).


Lailson Castanha
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Gravura: Adão e Eva expulsos do Éden de Gustave Doré (1832-1883)

domingo, 2 de janeiro de 2011

As Sete Cartas do Apocalipse

As Sete Cartas do Apocalipse

Bispo José Ildo Swartele de Mello*

INTRODUÇÃO:

Tem muita gente que imagina que o Apocalipse é um livro repleto de mistérios enigmáticos que somente os especialistas seriam capazes de decifrar, mas isto não é verdade, pois o próprio termo Apocalipse significa revelação. Sendo assim, o que estava oculto, agora, está sendo revelado; Os sete selos que lacravam o livro foram rompidos pelo Cordeiro de Deus, revelando, assim, como ele próprio vencerá e julgará o mal para estabelecer a plenitude de seu reino de justiça e paz (5.1-14).

Além disto, é preciso ter em mente que o Apocalipse são cartas endereçadas ao povo simples e sofredor das sete igrejas da Ásia Menor que viveram no primeiro século da era cristã. Portanto, foi escrito de tal maneira que essas pessoas humildes pudessem compreender sua mensagem.
O livro é uma revelação de como o glorioso Senhor Jesus Cristo, o soberano dos reis da terra (1.4), promoverá juízos contra os malfeitores trazendo pureza, justiça e paz ao mundo (6.12-17 e capítulos 18 a 22). O clima é de guerra contra o mal (18.14), onde inúmeros seguidores de Cristo estão sendo martirizados (6.9; 7.9-14 e 13.15; 20.4). Mas o que parece ser um sinal de fraqueza da Igreja se converterá em força, pois a morte não é o fim daqueles que seguem o caminho do Cordeiro de Deus que foi morto, mas ressuscitou e que vive e reina para sempre juntamente com todos os seus mártires (1.18; 18.14 e 20.4).


O livro traz conforto e ânimo aos que estão passando pela Grande Tribulação (7.13-17; 18.14). Eles não devem ter medo do sofrimento, pois tudo está sob o controle do Senhor Jesus (2.10). Ele triunfará sobre o mal e vingará o sangue dos inocentes (6.9-17; 18.14 e19.1-9), retribuindo a cada um segundo as suas obras (2.23; 22.12). O Rei das Nações (15.3) promoverá a cura das nações (22.2) e a maldição não terá mais lugar (22.3), pois felizes para sempre serão os que lavaram as suas vestes e as alvejaram no sangue do Cordeiro (22.14; 7.14-17; 20.4).

Esta revelação é dada à sete igrejas da Ásia menor. Não haviam apenas sete igrejas naquela região, mas sete foram escolhidas para representar a Igreja de Cristo em sua totalidade, assim como João escolheu cuidadosamente sete milagres de Jesus para registrar em seu Evangelho com o intuito de representar a totalidade dos milagres como um demonstrativo da natureza divina de Cristo. O fato do Senhor comunicar em primeira mão à igreja o que ele está para prestes a executar demonstra o alto conceito que ele tem da Igreja.

A igreja pode ser desprezada e perseguida pelo mundo, mas é valorizada por Jesus. A igreja está no centro dos planos de Deus (Ef 1.22-23; 2.6-7; 2Co 5.18-20), ela é agente do Reino de Deus e serve como protótipo da nova criação, do novo céu e da nova terra que estão a caminho (1 Pe 2.9; Mt 5.13-15; Mt 6.10; At 1.8; 1 Pe 4.10; 2 Co 5.17; Rm 14.17).

Assim como Deus não fazia nada sem antes comunicar aos seus servos, os profetas (Am3.7), assim também, o Senhor comunica à Igreja o que está prestes a fazer, pois ela é o Corpo de Cristo nesta terra e foi incumbida de exercer um papel preponderante na execução dos planos de Deus (Mt 28.18-20; At 1.6-8; 1 Pe 2.9), além disto, o Senhor alerta a igreja para ela não ser pega de surpresa quanto as provações que há de enfrentar em sua luta contra o mal. O conteúdo desta revelação serve também de conforto e ânimo, motivando a Igreja a perseverar em seu testemunho diante das tribulações para que ela possa cumprir com fidelidade a sua importante missão no mundo.

A Igreja possui um papel ativo nos planos de Deus. Os eventos escatológicos estão intimamente ligados ao sucesso da missão da Igreja, pois o fim só virá depois da pregação do Evangelho a todas as nações (Mt 24.14). O Apocalipse revela que haverá no céu uma multidão incontável de mártires procedentes de todos os povos, tribos e nações (7.9), sinal de que a Igreja cumprirá com sucesso sua missão, possibilitando assim que os eventos de juízo contra o mal cheguem ao clímax na consumação dos séculos que trará o dia do Juízo Final. Tais juízos são consequências da ira de Deus que virá sobre a terra para vingar o sangue dos inocentes (6.10 e17; 14.7; 16.1-7 e 19.2) e para estabelecer um novo tempo em que a maldade não terá mais lugar (21.1-7).

Agora, todo privilégio traz consigo responsabilidades (Tg 3.1). O Senhor pede conta dos talentos entregues aos seus servos (Mt 25.19). “Para aquele que muito for dado, muito será requerido” (Lc 12.48). O Senhor está revelando à Igreja os seus juízos contra o mal que estão prestes a acontecer no mundo em favor da restauração da santidade, mas, “o julgamento começa pela casa de Deus; e, se começa primeiro conosco, qual será o fim daqueles que não obedecem ao evangelho de Deus? E, se ao justo é difícil ser salvo, que será do ímpio e pecador?” (1Pe 4.17 e 18). Sendo assim, vemos aqui nestas cartas do Apocalipse, que o Senhor Jesus que está prestes a julgar o mundo, começa seu julgamento a partir de sua própria Igreja, pois ela deve servir como luz do mundo e sal da terra. A Igreja é uma comunidade escatológica, composta por novas criaturas, que receberam um novo coração (Ez 11.19) e que foram regenerados e capacitadas pelo Espírito (Tt 3.5-6), recebendo todas as condições necessárias para viverem uma nova vida de acordo com os valores do Reino de Deus (2Pe 1.3; Ef 1.3), servindo como um sinal e também como uma semente do futuro que Deus tem planejado para toda a humanidade (Ef 1.10). Vejamos o que Jesus escreve as sete igrejas.

Lendo as sete cartas de Cristo, percebemos o seguinte padrão geral: 1. Jesus se apresenta; 2. Jesus conhece as virtudes da Igreja; 3. Jesus conhece os pecados da Igreja; 4. Jesus punirá os infiéis; 5. Jesus exorta ao arrependimento 6. Jesus recompensará os fiéis e 7. A exortação final de Jesus. Então, Vamos examinar as cartas por cada um destes sete tópicos.

1. JESUS SE APRESENTA ASSIM ÀS SETE IGREJAS:
1. À Éfeso como aquele que tem as sete estrelas em sua mão direita e anda entre os candelabros (2.1).
2. À Esmirna como o Primeiro e o Último, como aquele que morreu e tornou a viver (1.8).
3. À Pérgamo como aquele que tem a espada afiada de dois gumes (2.12),
4. À Tiatira como o Filho de Deus, cujos olhos são como chama de fogo e os pés como o bronze reluzente (1.18);
5. À Sardes como aquele que tem os sete espíritos de Deus e as sete estrelas (3.1);
6. À Filadélfia como aquele que é santo e verdadeiro e que tem a chave de Davi (3.7);
7. E à Laodicéia como o Amém, a testemunha fiel e verdadeira e como o soberano da criação de Deus (3.14).


Então, em suas apresentações, Jesus se revela como o Senhor da Igreja, que passeia no meio dela (1.20; 2.1; 3.1), marcando sua forte presença e presença no meio da Igreja com seus pés como de bronze reluzente e como aquele que tudo vê através de seus olhos que são como chama de fogo que examina as obras de cada um, queimando o pecado, destruindo a palha e purificando o metal precioso (1.18; 1Co 3.13); E, como aquele que morreu e ressuscitou, ele conforta e anima os atribulados, e com a chave de Davi, o santo e verdadeiro, tem poder para abrir e fechar portas que ninguém pode reverter. E, com sua espada afiada de dois gumes, ele está pronto para punir os malfeitores. Jesus não é apenas o Senhor da Igreja, mas é também o soberano da criação de Deus.

2. JESUS CONHECE AS VIRTUDES DA IGREJA
Portanto, Jesus conhece pessoalmente Igreja. Ele conhece as circunstâncias adversas (2.9, 13) e destaca as virtudes das igrejas, tais como: as boas obras (2.2, 19), o amor (2.19), o trabalho árduo (2.2, 19), a perseverança diante do sofrimento e pobreza (2.2, 3, 9, 19, 3.8, 10), a perseguição e martírio por fidelidade a Cristo (2.10, 13; 3.8) sua luta contra os hereges e seu apego a sã doutrina (2.3, 24, 3.10), sua santidade (3.4), sua fidelidade (2.13; 3.10) e obediência e a sua fé e serviço (2.19).


3. JESUS CONHECE OS PECADOS DA IGREJA
Mas Jesus também conhece muito bem os pecados da Igreja, tais como: aqueles que seguem os falsos apóstolos e profetas, aqueles que seguem as heresias dos nicolaítas, Jezabel e de Balaão, aqueles que vivem na prática de imoralidades e idolatrias, aqueles cujas obras não são perfeitas, aqueles que são mornos espiritualmente falando e aqueles que se acham espirituais, mas que de fato são miseráveis, pobres, cegos e que estão nus (3.17; 2Pe 1.8-9) , de modo a envergonhar o santo nome de Cristo.


4. JESUS ADVERTE MOSTRANDO AS CONSEQUÊNCIAS DE UMA VIDA PECAMINOSA
Jesus não admite o pecado no mundo e muito menos na Igreja (2Tm 2.19). Ele, num ato de misericórdia, buscando despertar a Igreja, adverte apontando para as duras consequências de uma vida pecaminosa. Os crentes devem se arrepender, “se não”: terão o seu candelabro removido (2.5), ou seja, a sua luz será apagada, e não terão direito a comer do fruto da árvore da vida que está destinado somente aos vencedores (2.7), e não terão direito a coroa da vida que esta destinada apenas aos que forem fiéis até a morte (2.10) e estarão sujeitos à segunda morte que é a condenação eterna, pois somente ao vencedor é dito que de modo algum sofrerá a segunda morte (2.11). Se não houver arrependimento e mudança de atitude, o próprio Senhor Jesus virá contra os impenitentes com a sua espada afiada de dois gumes (2.16), pois Jesus retribuirá a cada um segundo as sua próprias obras (2.23). Se os crentes não estiverem vigiando, serão surpreendidos quando, Jesus, o noivo vier de surpresa e ficarão de fora das bodas (3.3; Mt 25.1-13), terão seus nomes riscados do livro da vida, pois somente os fiéis é que jamais terão os seus nomes apagados deste livro (3.5; Ex 32.33). Se não houver arrependimento, se não houver fervor espiritual, o crente morno deve saber que corre o risco de ser vomitado da boca do próprio Deus (3.16).


5. JESUS CONVIDA AO ARREPENDIMENTO
Jesus conclama a Igreja ao arrependimento (2.4, 16, 21-24, 3.3, 19).Jesus passeia no meio dos candelabros (2.1), ele anda no meio da Igreja esquadrinhando mentes e corações. Ele enaltece as virtudes, mas também recrimina o pecado, advertindo quanto aos perigos que a Igreja está correndo se persistir no erro, tudo visando à cura e à restauração da santidade da Igreja. Pois o Pai repreende ao filho porque o ama e lhe quer bem (3.19). Jesus concede tempo e oportunidade para o arrependimento até mesmo daquela falsa profetiza Jezabel (2.21)! E para a mais carnal e pecaminosa de todas as sete igrejas, Jesus ainda estende este carinhoso convite, dizendo: “Eis que estou à porta e bato. Se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei e cearei com ele, e ele comigo” (3.20). Jesus está à porta batendo. Ele não está com um pé de cabra querendo entrar à força. Ele não nos empurra o Evangelho goela à baixo. Jesus não arromba a porta de nosso coração, pois deseja que sejamos receptivos ao seu convite amoroso. Só não aceita quem não quer. Ele não quer filhos contrariados dentro de sua casa. Se o filho quer ir embora, pode ir, mas se volta arrependido, mesmo estando em frangalho, ferido e quebrado, é recebido com beijos, abraços e muita festa! (Lc 15.11-24)


6. JESUS MOTIVA MOSTRANDO AS RECOMPENSAS
Jesus estimula sua Igreja mostrando os galardões ou recompensas que os fiéis receberão no final de sua jornada cristã. O vencedor comerá da árvore da vida que está no Paraíso de Deus (2.7), aquele que for fiel até a morte receberá a coroa da vida (2.10), o vencedor receberá ainda o maná escondido e uma pedra branca com um novo nome nela escrito (2.17), o que vencer e for obediente até o fim receberá autoridade sobre as nações e receberá a estrela da manhã (2.26-28), os vencedores que não contaminaram as suas vestes, andarão com Jesus, vestidos de branco, pois são dignos, e, por isto mesmo, jamais terão o seus nomes apagados do livro da vida, mas serão reconhecidos diante do Pai celeste (3.4-5), o vencedor servirá perpetuamente em posição privilegiada como coluna no santuário de Deus, e receberá em si a inscrição do nome de Deus, do Senhor Jesus Cristo e de sua santa cidade celestial (3.12), e, por fim, o vencedor receberá o direito de sentar-se juntamente com Cristo no seu trono assim como Jesus venceu e recebeu o direito de sentar-se no trono do Pai (3.21). A coroa da vitória é promessa garantida aos que combateram o bom combate, completaram a carreira, e guardaram a fé (2 Tm 4.7). Somos, assim, estimulados à desenvolver nossa salvação como temor e tremor e também à nos empenharmos para confirmar nossa eleição sabendo que é desta forma que estaremos ricamente providos para entrar no Reino Eterno de nosso Senhor e Salvador (2Pe 1.10.11).


7. ÚLTIMA EXORTAÇÃO DE JESUS
No final de cada uma das sete cartas, Jesus dirige uma última exortação, dizendo: “Aquele que tem ouvidos ouça o que o Espírito diz às igrejas” (2.7, 11, 17, 29; 3.6, 13 e 22). Como também alertou o autor de Hebreus: “Hoje, se vocês ouvirem a sua voz, não endureçam o coração... cuidado, irmãos, para que nenhum de vocês tenha coração perverso e incrédulo, que se afaste do Deus vivo” (Hb 3.7-12). O Espírito de Cristo está falando e batendo a porta. Ele nos ama e quer o nosso bem, desejando ter comunhão conosco. “Por isso é preciso que prestemos maior atenção ao que temos ouvido, para que jamais nos desviemos. Porque, se a mensagem transmitida por anjos provou a sua firmeza, e toda transgressão e desobediência recebeu a devida punição, como escaparemos, se negligenciarmos tão grande salvação?” (Hb 2.1-3a). Portanto, “Aquele que tem ouvidos ouça o que o Espírito diz às igrejas”!


*Bispo José Ildo Swartele de Mello
Casado com Ana Cristina, pai de três filhos: Samuel, Daniel e Rafael, é também Professor de Teologia, Escatologia e Evangelização na Faculdade Metodista Livre. Formado em Bacharel pela Faculdade Metodista Livre, cursou Mestrado em Teologia na Faculdade Teológica Batista de São Paulo e fez Doutorado em Ministério na Faculdade Teológica Sul Americana. Pastor desde 1986 (Cidade Ademar 86-88; Vila Guiomar 89; Vila Bonilha 90-97, Aeroporto 98-2004), serve atualmente como Pastor da Imel de Mirandópolis, como Bispo da Igreja Metodista Livre do Brasil e como presidente do Concílio Mundial de Bispos.

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Foto: Bispo Jose Ildo Swarlete Melo

sábado, 27 de novembro de 2010

Relação de alteridade.

Relação de Alteridade.

Em um relacionamento saudável uma das principais buscas é a comunhão entre os relacionistas. Busca-se a comunhão porque existe a distância originária ou a separação originária. A união é a procura do estabelecimento de uma unidade de ideais. Jamais podemos pensar em união eliminando a idéia de separação, ou seja, pensar em união é admitir a realidade da distância originária – o próprio sentido do termo indica a admissão da distância, senão, porque unir-se a alguém? – que por unir alguma coisa? - por que juntar?

Quando falamos em união envolvendo seres racionais jamais podemos admitir uma união sem admissão mútua. Admitir união sem mútuo consentimento é aceitar a redução do ser racional a categoria de objeto, pois apenas as coisas objetivantes são juntadas sem a necessidade de admissão ou de desejo. Quando falamos em união entre seres racionais, uma palavra de forte significação deve vir-nos a tona. Não entendemos efetivamente o significado de união entre seres de razão sem entender o significado de alteridade. Pensar em união, sem admitir a realidade da alteridade é cometer o equivoco de reduzir pessoas a objetos, é confundir uma relação de aproximação mútua com uma colagem artificial coisificante e arbitrária.

Deus é o ser de razão por excelência, como seres humanos, fomos criados a partir de sua razão -, com nossa razão nos assemelhamos a aspectos de sua imagem. Como ser de razão o ser humano ama, expressa sentimentos, cria, e é pessoal, em outras palavras, é uma pessoa que se distingue de outra, que em muito se aproxima, mas que também nutre algumas peculiaridades. Deus é amor em plenitude, em uma palavra, é um ser pleno. Somos distintos de Deus porque Deus é um-Outro, um não-eu. Por outro lado, a aliança proposta por Deus existe porque existe essa alteridade, ou seja, porque existe a concretude do outro, a admissão da existência do outro – não sou Deus e muito menos Deus me é.

Deus criador criou o homem em sua alteridade, como um ser concretamente outro. Sua criação é feliz quando se relaciona com esse criador em amor, quando se apraz em estar junto a Ele, pois estar junto a Deus é estar junto ao Bem Maior, estar afastado de Deus é estar afastado do Bem Maior.

Em sua alteridade Deus e considerando a alteridade do homem Deus não elege o homem a vivência de uma relação de maneira absolutamente predeterminista, nem rejeita uma aproximação nos mesmos moldes; crer em uma aproximação absolutamente determinista é não crer na alteridade de Deus nem na alteridade do homem. Se Deus é outro e o homem também o é, lembrando que são seres de razão, logo qualquer aproximação ou religação, ou também rejeição, como também um completo afastamento só pode acontecer como resposta pessoal a um chamado ou como negação. Determinar qualquer relação sem resposta é determinar uma ligação coisificante e objetivante.

As Escrituras mostram-nos uma maneira diferente de Deus se relacionar com o ser humano, diferente daquelas que alguns círculos dogmáticos protestantes tentam demonstrar. Percebe-se em várias passagens o homem fazendo o que Deus não gostaria que ele fizesse, escolhendo coisas e tomando posições por Deus consideradas reprováveis, porém, apesar da reprovação explicita, mesmo assim, Deus não impede que o homem se distancie de seu desejo, ou, em outras palavras, não siga a sua vontade. O que isso pode significar? Fica claro que Deus não se relaciona com o homem da maneira em que nós nos relacionamos com um objeto. Com um objeto nós manipulamos para cumprir determinadas funções que lhe designamos. Se o objeto não serve, logo o jogamos fora. Os calvinistas gostam de comparar o homem a um objeto e Deus a um objetivador. Deus como aquele que se relaciona com o objeto, como aquele que tem metas traçadas para aquele objeto e o homem simplesmente como o objeto a ser usado e escolhido para a tal meta, e como objeto, usado ou reprovado de maneira indiferente ao seu desejo ou a sua aplicação, para isso, se fixam na alegoria do oleiro e do vaso de barro citada pelo apóstolo Paulo em Romanos 9. Essa apropriação indevida esta ligada a alguns problemas, um deles é porque os que interpretam esse texto como indicando um Deus determinista deixam de observar as fontes escrituristicas que o apóstolo citou. Se observarmos a fonte originária, no diálogo de Deus com Jeremias você pode perceber idéias como arrependimento. Naquela passagem, Deus diz ao profeta se a nação de Israel se arrependesse não seria quebrada, portanto, não se percebe uma a fria e impessoal relação objetivante-objeto . Quanto ao texto de Paulo, a asserção do apóstolo se dá em direção aos homens que, ostentando o título de Judeus não aceitam a sua condição, em direção a eles é que o apóstolo se apropria da alegoria do vaso e do oleiro. Sobre essa questão Jacobus Arminius tem uma excelente expicação, que creio se harmoniza com a forma holística em que as escrituras nos apresentam Deus e sua relação com os homens, vejamos:

Nós devemos agora ver como aquelas coisas que nós atribuímos a Deus naquelas aplicações devem ser compreendidas; a saber, isto “Ele pode fazer da raça humana, fazer vaso para honra e outro a desonra, um homem para receber misericórdia, e outro para ser endurecido pela sua vontade irresistível." A palavra "poder" utilizada aqui, significa não a capacidade, mas o direito e a autoridade. É ejxousi>a não um du>namiv. Por isso, o assunto nesta passagem, não é o poder absoluto pelo qual Ele é capaz de fazer qualquer coisa, mas a razão pela qual é lícito que ele deva fazer qualquer coisa. (1)

Depois Arminius continua:

Deus não fez o homem, que só poderia ser aquilo que ele foi feito, mas, que ele poderia tender a maior perfeição. Também não acho que Deus em Sua própria bondade foi satisfeito, quando ele tinha se comunicado a Si mesmo ao homem, como seu criador, mas glorificou-se a si mesmo, mas, Ele quis comunicar-se ainda mais para o homem, como também "o glorificador do homem;" e que isto poderia ser possível se Ele o dotasse, não só com sua natureza, mas também com dons sobrenaturais. Mas a justiça prescreveu a regra e a medida desta comunicação, a saber, que deveria ser feito só com a condição de que o homem deva viver conforme a imagem divina, na obediência às ordens de Deus, e, desde que se ele pode ser exaltado, ele também pode ser subjugado, — e nada é mais justo de que subjugá-lo, se ele abusar dos dons, que pelo uso direito dos tais ele poderia ser exaltado a mais alta dignidade. (2)

Aqui vemos a alteridade. O homem ou nação feito vaso para desonra, ou honra, recebe misericórdia ou é endurecido, porque Deus levando em consideração os desígnios pessoais desse homem ou os costumes de cada nação levou cada homem ou nação à vivência dos frutos que semeou. Ou seja, deu a cada um segundo as suas obras. No caso da nação Israelita, Deus fez um pacto que pelos israelitas foi quebrado, a quebra desse pacto levou a nação ser desonrada e endurecida. Apesar de escolher uma nação para honra para que essa o honrasse, Deus não impediu que essa nação o desonrasse com os seus atos.

Arminius também nos leva a pensar que a resposta positiva do homem a Deus levaria a si mais honra, e, portanto, o estado de desonra em que vive o homem está relacionado diretamente com a resposta negativa que o próprio homem em sua alteridade direciona a Deus, na liberdade de ser distintamente um outro.

O estado ideal em que o homem se encontra é debaixo da potente mão de Deus e submetido aos seus conselhos, porém, o desejo de Deus é de encontrar pessoas que o adorem em Espírito e em verdade, não por força, mas pelo convencimento de seu Espírito, e por convencimento, não se entende como uma hipnose que leva alguém a crer no que foi imposto, ou usando uma linguagem mais teológica, em uma graça irresistível, e sim uma relação dialogal com o outro mostrando a verdade e necessidade da vivência de suas proposições.

Assim se dá uma relação de alteridade, Deus quando convida o homem a se arrepender, a escolher e a vigiar, leva em consideração a alteridade – a vivência pessoal do outro, por isso convida e não força, por isso chama e não carrega a força; busca através da graça aproximar o outro para si mesmo a fim de que todos sejam um no Pai, em perfeita comunhão, momento em que a alteridade se submergirá na unidade(3) – e, enfim será aniquilada a separação originária.

Lailson Castanha
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(1)Works Of Arminius Vl. 3
(2)Ibid
(3) 1 Coríntios 15.28
Gravura: recorte do afresco de Michelangelo no Teto da Capela Sistina realizado entre os anos 1508 e 1512 no Vaticano.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Doutrina do Livre Arbítrio. Igreja Metodista

Igreja Metodista - Doutrinas

4. Livre Arbítrio

Introdução

Se houve uma doutrina que causou grande discussão e criou barreiras de comunicação entre muitos e grandes pensadores cristãos do passado foi a questão de poder ou não o ser humano determinar o seu próprio destino, exercendo, o que se convencionou chamar em linguagem teológica, o seu livre arbítrio.

Muitos foram os ódios que esta discussão acendeu em virtude, porém, de esforços sinceros tanto de um lado quanto de outro, que buscavam de igual modo manter uma concepção adequada e bíblica a respeito de Deus e de seu amor. Que creram os metodistas a respeito disso?

Textos Bíblicos:

• João 1:14-18: o texto mostra como Jesus, deixando sua glória, fez-se ser humano para revelar o amor de Deus a nós. Ele se esvaziou de seu poder, livremente, sem imposição.

• Romanos 6:1-4: se morremos para o pecado, ele não tem mais domínio sobre nós. Com nova vida em Cristo andamos dirigidos por sua Graça. A vontade de Cristo passa a ser a nossa vontade.

• Efésios 2:8-10 e Tito 3:4-7: Deus nos dá a possibilidade da salvação através de sua Graça: é um dom, um presente que Ele nos oferece. Resta-nos receber esse presente. Nenhum esforço nosso, nem obras, nem sacrifícios, poderiam nos salvar, se Deus nada fizesse.

a - Que Aconteceu ao Ser Humano? Criado para a perfeição, para responder a Deus da maneira mais adequada e imediata, descobre-se o ser humano impotente para poder escolher.
A experiência de Paulo, descrita em Rm 7:15 em diante, não lhe foi única. Através dos tempos a mesma frustração tem levado os homens e as mulheres, judeus ou gregos, cristãos ou pagãos, a sentirem a sua incapacidade de afirmar a sua própria vontade: "não faço o que prefiro e sim o que detesto... O querer o bém está em mim, não porém o efetuá-lo."

A resposta que os hebreus deram a esta situação de decadência foi a criação perfeita do primeiro ser humano, seguida de sua desobediência à vontade de Deus, o que determinou todo um processo de desordem no universo, em contradição entre ele e Deus, entre ele e seu próximo e dentro de si mesmo. Esta dualidade de vontades em choque dentro da personalidade humana, foi caracterizada por Paulo como uma luta que se deve travar entre a carne e o espírito, o princípio decadente e a ansiedade de fazer a vontade de Deus, ambos presentes simultaneamente no ser humano.

O fato é, porém, indiscutível. O ser humano não tem a capacidade real de escolher entre o bem e o mal e de permanecer do lado da virtude. Wesley diz que o ser humano perdeu o seu livre arbítrio natural. Entre os artigos de religião da Igreja da Inglaterra havia um que Wesley incluiu entre os 24 que ele escolheu como padrão doutrinário dos Metodistas, como segue: "A condição do homem, depois da queda de Adão, é tal que ele não pode converter-se e preparar-se pelo seu próprio poder e obras, para a fé e invocação de Deus; portanto não temos forças para fazer obras agradáveis e aceitáveis a Deus sem a sua graça por Cristo, predispondo-nos para que tenhamos boa vontade e operando em nós quando temos essa boa vontade."

b - Até Que Ponto Podemos Escolher? É, porém, perfeitamente verificável pela experiência de cada dia que somos capazes de escolher em nossa vida as coisas que desejamos para nós e, ao mesmo tempo rejeitar as que não nos interessam. O senso de escolha não foi extirpado em nós.

Wesley dizia que não somente o ser humano pode escolher o agir ou deixar de agir, como pode também escolher entre duas formas diferentes de ação. "Negar isto, diz Wesley, seria negar a experiência constante de toda experiência humana. Todos sentem que têm um poder inerente de mover esta ou aquela parte de seu corpo, de movimentá-lo ou não, e de movimentá-lo deste ou daquele modo como for do seu agrado. E posso, conforme escolher (e assim todos os que são nascidos de mulher), abrir ou fechar meus olhos, falar ou calar-se, levantar-me ou sentar-me, estender minha mão ou escondê-la, usar qualquer dos meus membros conforme for do seu agrado bem como todo meu corpo".

Wesley também dizia que o ser humano era livre para escolher nas coisas de natureza indiferente. Nas coisas, porém, que envolviam questões morais sua tendência era sempre a de escolher para o mal. Dizia mesmo que a vontade do ser humano é, por natureza, livre apenas para o mal.

Entretanto, embora tivesse perdido todo o seu livre arbítrio natural em virtude da degeneração da raça pelo pecado, o ser humano, pela misericórdia de Deus, teve em si restaurada, até certo ponto, a capacidade de escolha. É o que poderíamos chamar de LIVRE ARBÍTRIO PELA GRAÇA. A Graça preventiva de Deus, na linguagem de Wesley, atuando sobre o coração do ser humano, recupera-lhe a possibilidade de responder positiva ou negativamente, aos apelos que o próprio Deus lhe faz.

A Graça dá assim ao ser humano a possibilidade de aceitar ou rejeitar esta mesma graça. A decisão, finalmente, é sua. É isto o que diz o Artigo de Religião, que afirma que a Graça de Deus em Cristo é que nos predispõe para que tenhamos a boa vontade de aceitar esta mesma graça. Quando, então, demonstramos esta boa vontade, a graça passa a operar em nós dando-nos então a possibilidade de praticar as boas obras que de outra forma nos seriam impossíveis.

c - Calvinismo e Arminianismo: João Calvino e Tiago Armínio são dois nomes que podem ser postos de pólos opostos, quando consideramos a questão da decisão humana na aceitação ou rejeição da graça de Deus.

Calvino, na Suíça, estabeleceu as linhas tradicionais da teologia reformada, rejeitando o catolicismo romano e demonstrando com argumentos bíblicos irrespondíveis que nehum ser humano tem méritos de si mesmo para alcançar a salvação, que é concedida ao ser humano por Deus em virtude de sua graça gratuita e imerecida, que promove a fé no coração.

Calvino procurou colocar Deus no seu devido lugar, como o Soberano e Supremo Criador de todas as coisas, que dirige e governa o mundo e os homens e mulheres. No desenvolvimento de sua teologia, entretanto, não encontrando explicação para o fato de que muitos seres humanos não aceitam o evangelho e fundamentando-se em certas passagens da Escritura, Calvino chegou à conclusão de que Deus predestinou alguns seres humanos para a salvação, operando em suas almas, por sua graça irresistível e levando-os à fé. A princípio Calvino nada afirmou a respeito dos demais, dos que não creram em Cristo. Posteriormente, porém, o desenvolvimento lógico de sua posição teológica o levou a admitir que Deus havia também predestinado a estes para a perdição.

Tiago Armínio, que nasceu na Holanda quatro anos antes da morte de Calvino, tornou-se pastor reformado em seu país e seguidor de perto das idéias calvinistas. Quando lhe pediram entretanto, que elaborasse uma tese para defender o calvinismo, especialmente no que diz respeito à predestinação, Armínio parou para pensar e concluiu que esta doutrina era incompatível com o testemunho total da Escritura. Ele concluiu que a exaltação do Criador exigia a liberdade do ser humano. "De suas mãos saíram um ser racional, feito espiritualmente à sua semelhança e não um autômato. Dotara-o com a capacidade de escolha e opção; fê-lo responsável pela consequência da escolha; deu-lhe disposições para conhecer a Deus e gozar a vida eterna... Admitida a predestinação absoluta, o livre arbítrio torna-se impossível, porque a vontade já se acha determinada em seu exercício. qualquer ordem dada a qualquer ser humano, nestas condições, é contra senso.

Confrontado com as duas posições, João Wesley não teve dúvidas: abraçou o arminianismo neste ponto, chegando mesmo a dar à publicação que fazia periodicamente para os metodistas o nome de A Revista Arminiana. "Sem a liberdade, diz Wesley, não pode haver mal nem bem, moralmente falando, virtude ou vício. A virtude não existe, a não ser quando um ser inteligente conhece, ama e escolhe o que é bom; nem existe o vício, a não ser onde um ser conhece, ama e escolhe o mal".

Qualquer doutrina que nega o livre arbítrio concedido pela graça de Deus já em operação no coração humano, destrói a possibilidade da compreensão humana e faz do homem e da mulher nada mais do que uma simples máquina, mera sombra daquilo que ele e ela na realidade são, trasformando-os em brinquedo de marionetes nas mãos de um tirano. E não é assim que Deus se relaciona conosco.
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Metodismo: Doutrinas - 4. Doutrina do Livre Arbítrio
Fonte:
http://remne.metodista.org.br/conteudo.xhtml?c=9727


domingo, 24 de outubro de 2010

VIII. A divindade do Filho de Deus

VIII. A divindade do Filho de Deus

Jacobus Arminius

No que diz respeito à divindade do Filho de Deus e da autoqeov ambas palavra as quais têm sido discutidas em nossa Universidade, na forma regular de disputas escolásticas, não posso entender suficientemente por qual motivo se criou um desejo em algumas pessoas tornar-me suspeito à outros homens, ou fazer-me um objeto de suspeita a si mesmos. Ainda é mais admirável, uma vez que esta suspeita não tem o menor fundamento de probabilidade sobre a qual descanse, e está a uma distância tão imensa de toda razão e verdade, que, independentemente dos relatórios que foram espalhados a respeito deste caso, em prejuízo ao meu caráter, podem ser chamados de nada mais do que " notórias calúnias." Em um debate realizado em uma tarde na Universidade, quando a tese de que havia sido proposta para a disputa, a divindade do Filho de Deus, a um dos alunos aconteceu objetar ", que o Filho de Deus foi autotheos, e que, portanto, tinha sua essência de si mesmo e não do Pai ". Em resposta a isto observei, "que a palavra autotheos era capaz de duas acepções diferentes, uma vez que pode significar tanto "aquele que é verdadeiramente Deus ", ou "aquele que é Deus em si mesmo" e que foi com grande propriedade e correção atribuída ao Filho de Deus, segundo a significação primeira, mas não de acordo com a última. O aluno, em prosseguimento

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ao seu argumento, alegou violentamente, que a palavra foi justamente aplicável ao Filho de Deus, principalmente de acordo com a segunda destas significações, e que não pode ser dito que a essência do Pai não poderia ser comunicada ao Filho e ao Espírito Santo, em qualquer outro do que em um sentido impróprio; mas que estava em perfeita exatidão e correção rigorosa comum tanto para o Pai, o Filho e o Espírito Santo, acrescentou que afirmou isso com a maior confiança porque tinha Trelcatius, jovens de saudosa memória, [ainda em vida]como uma autoridade a seu favor quanto a este ponto, já que aquele Professor erudito tinha escrito no mesmo sentido em seu lugares comuns . A essas observações eu respondi, "que este parecer estava em desacordo com a Palavra de Deus e com a totalidade da Igreja antiga, ambas, grega e latina, que sempre ensinou que o Filho tinha Sua Divindade do Pai por geração eterna." Para essas observações eu acrescentei", que um parecer como este, necessariamente acompanha dois erros opostos, Tri-teísmo e Sabelianismo, isto é:

1. Ele pode advir como uma consequência necessária dessas premissas: que há três Deuses, que têm em conjunto e colateralmente a essência Divina, independentemente desta circunstância — que um deles (sendo apenas pessoalmente distinguido do resto) tem aquela essência de outras pessoas. No entanto, o processo da origem de uma pessoa - de outra, (isto é, o Filho do Pai), é o único fundamento que já usado para defender a unidade da essência divina na Trindade de pessoas.

2. Seguiria do mesmo modo como outra consequência, que o Filho seria o Pai, porque ele se diferenciaria do Pai apenas com respeito ao nome, qual foi a opinião de Sabellius. Pois, uma vez que é peculiar ao Pai derivar sua divindade de si mesmo, ou (para falar mais corretamente), derivá-la de ninguém, se, no tocante a ser "Deus de si mesmo," o Filho ser chamado autotheos, resulta que ele é o Pai. Alguma conta desta disputa, dispersou-se no exterior em todas as direções, e chegou a Amesterdão. Um ministro daquela cidade, que agora descansa no Senhor, tendo-me interrogado a respeito do verdadeiro estado deste assunto, relatei a ele tudo claramente, como agora tenho feito e solicitei-o fazer Trelcatius, de abençoada memória, informado, como de fato

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ocorreu, e para recomendá-lo de maneira amigável à alterar sua opinião, e para corrigir as palavras inapropriadas em seus lugares comuns: este pedido o ministro de Amsterdão ocupou-se à cumprir de seu próprio modo. Em todo esse processo eu estou longe de ser passível de qualquer culpa, pois tenho defendido a verdade e os sentimentos da Igreja Católica e da Igreja Ortodoxa. Trelcatius, sem dúvida, era a pessoa mais aberta à censura, porque ele adotou uma forma de discurso que diminuiu um pouco a verdade sobre a matéria. Mas essa tem sido sempre, quer por infelicidade minha ou o zelo de certos indivíduos que, tão logo surja qualquer divergência, a culpa é imediatamente lançada sobre mim, como se fosse impossível para mim expor com muita veracidade [ou ortodoxia] como qualquer outra pessoa. Ainda sobre este assunto eu tenho o próprio Gomarus consentindo comigo, porque, logo após Trelcatius haver publicado seus lugares comuns, um debate sobre a Trindade tendo sido proposto na Universidade, Gomarus fez em três partes várias de suas teses se expressar em termos tais como eram diametralmente opostos àqueles de Trelcatius. A tão óbvia a diferença na opinião entre aqueles dois Professores eu apontei ao ministro de Amsterdão, que reconheceu a sua existência. No entanto, apesar de todas estas coisas, ninguém procurou restituir-me desta calúnia, enquanto grande esforço foi empregado para moldar desculpas para Trelcatius, por meio de uma interpretação qualificada das suas palavras, porém, foi completamente impossível conciliar as suas explicações paliativas com o significação normal de suas expressões não pervertidas. Tais são os efeitos que a parcialidade do favor e do fervor de zelo podem produzir!

A leve e qualificada interpretação posta sobre as palavras de Trelcatius, foi a seguinte: “o filho de Deus pode ser denominado autotheos, ou pode ser dito ter sua deidade de si mesmo, em referência a seu ser Deus, embora ele tenha sua deidade do pai, em referência ao seu ser o Filho”. Para uma maior compreensão, é dito, "Deus, ou a Essência Divina, podem ser considerados tanto absolutamente como relativamente. Quando considerado absolutamente, o Filho tem a sua essência Divina de si mesmo; mas, quando examinado relativamente, deriva-se do Pai." Mas estas são modalidades novas do discurso e de opiniões, e tal qual não podem compor-se de modo nenhum em conjunto. Para o Filho, tanto com respeito ao que é o Filho, como ao que é Deus, deriva sua Deidade do Pai. Quando o chamam Deus, então só não é expresso que ele é do Pai; derivação que é particularmente notável quando a palavra Filho

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é empregada. Na verdade, a essência de Deus em nenhum modo pode vir a nossa consideração a não ser que seja dito: "que a essência divina é comunicada ao Filho pelo Pai". Também não pode, possivelmente, em quaisquer aspectos que se pretenda dizer, que essa essência é tanto o "que lhe é comunicada" e "não comunicada," porque essas expressões são contraditórias, e, em nenhum aspecto diverso pode se reconciliar com a outra. Se o Filho tem a Essência Divina de si mesmo em referência a seu ser absolutamente considerado, não pode ser comunicada a ele. Se for comunicada a ele em referência a seu ser considerado relativamente, ele não pode tê-lo de si mesmo em referência a seu ser absolutamente considerado.

Provavelmente me indagarão: "você não reconhece, que, ser o Filho de Deus, e ser Deus, são duas coisas completamente distintas umas das outras", eu respondo, idubitavelmente subscrevo tal distinção. Mas, quanto aqueles que a fazem avançar ainda mais, e dizer, "uma vez que é o Filho de Deus significa que ele deriva sua essência do Pai, ser Deus da mesma maneira não significa nada menos do que ele ter a sua essência de si mesmo ou de ninguém: "Eu nego esta afirmação, e declaro, ao mesmo tempo, que é um grande e manifesto erro , não só na sagrada teologia, mas também na filosofia natural. Pois, essas duas coisas, ser o Filho e ser Deus, estão em perfeita concordância entre si, mas derivar a sua essência do Pai, e, ao mesmo tempo, derivá-la de ninguém, é, evidentemente, contraditório, e mutuamente destrutiva uma do outra.

Mas, para tornar esta falácia ainda mais evidente, devem ser observadas, como igual em força e importância certas proposições ternárias e paralelas, quando posta na seguinte justaposição:

Deus é eterno, possessão da Essência Divina, desde a eternidade. O Pai não é de ninguém, tendo a essência divina de ninguém. O Filho é do Pai, tendo a Essência Divina do Pai. A palavra "Deus", portanto, significa que Ele tem a exata essência divina, mas a palavra "Filho" significa que ele tem a Essência Divina do Pai. Por conta disso, é corretamente denominado Deus e Filho de Deus. Mas desde que ele não possa ser denominado o Pai, dEle não pode se dizer que a Essência Divina é de si mesmo ou de ninguém. No entanto, muito trabalho é dedicado ao propósito de desculpar estas expressões, dizendo:

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“Que quando se diz que o Filho de Deus em referência ao seu ser Deus tenha a sua essência dessa forma de expressão, não significa nada mais de que a essência divina não é derivada de ninguém." Mas se isto for pensado para ser o modo mais adequado de ação que deverá ser aprovada, não haverá nenhum sentimento depravado ou errôneo que pode ser proferido que não poderá encontrar assim uma desculpa pronta. Já que, embora o Deus e a Essência divina não se diferenciem substancialmente, ainda independentemente do que pode ser declarado da Essência Divina não pode ser de modo nenhum igualmente declarado de Deus; porque eles são distinguidos um do outro no nosso modo de enquadrar conceitos, de acordo com o modo em que todas as formas de expressões deveriam ser examinadas, uma vez que são empregadas apenas como um esquema que por meio dele deveríamos receber impressões corretas. Isto é muito óbvio dos exemplos seguintes, nos quais falamos com perfeita exatidão quando dizemos, "Deum mortuum esse", e "a Essência do Deus é comunicada;" mas muito incorretamente quando dizemos, "Deus é comunicado." Aquele homem que entende a diferença que existe entre o concreto e abstrato, sobre o qual houve tais frequentes discussões entre nós e o luteranos, perceberão facilmente que um número de absurdidades seguirão, se as explicações desta descrição forem toleradas uma vez na Igreja do Deus. Por isso, de modo nenhum, independentemente do que pode esta frase, "o Filho do Deus é autotheos," ["Deus de si mesmo," ou "em seu próprio direito/juízo"] ser desculpada como um correto, ou como felizmente expressa. Que nem pode ser chamado de forma apropriada de discurso o que diz, "a Essência de Deus é comum a três pessoas;", mas é imprópria, desde que se declare que a Essência Divina seja comunicada por um deles aos outros. Gostaria que fossem especialmente consideradas as observações que faço agora, porque podem parecer delas quanto somos capazes em tolerar um homem em quem não suspeitamos de heresia; e, ao contrário, com que avidez nos valemos de qualquer circunstância trivial pela qual podemos incriminar outro homem a quem mantemos sob a interdição da suspeita. De tal parcialidade, esta ocorrência permite dois exemplos evidentes.

Tradução: Lailson Castanha
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Jacobus Arminius - As Obras de James Arminius Vol.1 http://wesley.nnu.edu/arminianism/the-works-of-james-arminius/a-declaration-of-the-sentiments-of-arminius/

Gravura: Trinidade de Guyart des Moulins (nascido na França em junho de 1251)

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Graça irresistível ou preveniente?

Graça irresistível ou preveniente?

Bispo Ildo Mello*

Li um interessante texto do Dr. Adrian Rogers a respeito do embate histórico entre arminianos e calvinistas. Ele começa afirmando que um cego precisa mais do que de luz para ser capaz de enxergar. E, que, quando jovem, costumava pensar que o seu papel como pregador era apenas o de ensinar o caminho da salvação para as pessoas. Mas logo percebeu que para uma pessoa cega a quantidade de luz é indiferente. Portanto, assim como é preciso mais do que luz para que um cego possa ver, assim também é necessário mais do que a pregação para que as pessoas possam ser salvas, pois somente o Espírito Santo pode convencer o homem do pecado, da justiça e do juízo. Por esta razão a igreja deve orar sem cessar em favor da conversão de almas, sabedora da dependência que temos da unção do Senhor para abrir os olhos dos cegos para a realidade do Evangelho de Cristo.

Ele arremata dizendo que o homem caído é cego espiritualmente e, portanto, carece de visão. Como ouvimos que não há quem busque a Deus, aprendemos das Escrituras que Deus toma a iniciativa de procurar o homem, que é exatamente os Evangelhos mostram Jesus fazendo quando o descreve buscando (Lucas 19:10),chamando (João12:32) e batendo a porta do coração do perdido (Apocalipse 3:20). Sendo assim, é o Espírito Santo quem convence o homem (João 16:8), dando pontadas no coração (At 26:14), compulgindo o coração (Atos 2:37), e promovendo a abertura do coração para que este possa ser capaz de responder positivamente ao Evangelho (Atos 16:14).

Esta é a iluminação da Graça Preveniente, que não deve ser confundida com a regeneração. Porque a Iluminação lida com o velho coração, enquanto a regeneração tem a ver com o novo coração. Em João 1:9 lemos que Jesus é verdadeira luz que, vindo ao mundo, ilumina a todo homem. Paulo afirma que o Evangelho é a Luz através da qual o Espírito Santo abre os olhos dos homens (Romanos 10:17). Um homem é iluminado a fim de receber o Evangelho. Um homem é regenerado depois de ter sido selado em Cristo (Efésios 1:13). A regeneração se dá através do lavar renovador do Espírito Santo (Tito 3:5), momento em que nos tornamos "novas criaturas" em Cristo (2 Coríntios 5:17), nascidas de novo, com um "coração novo" e um "espírito novo" (Ezequiel 36:26). O calvinismo, ao contrário, ignora o claro ensino de Efésios 1:13, para ensinar erroneamente que os homens são previamente escolhidos por Deus para a salvação, de modo que o chamado e a graça sejam irresistíveis para o grupo dos predestinados. Assim, fica manifesta a clara diferença entre a graça preveniente do arminianismo e graça irresistível do calvinismo.

Questões:

O calvinismo ensina que antes de crer e ser salvo é preciso ser previamente escolhido e estar preliminarmente posicionado em Cristo. Seria, então, possível estar em Cristo antes de ser salvo? Bem, para o arminiano, a ordem dos eventos está claramente apresentada em Ef 1:13, que ensina que primeiro é preciso ouvir o Evangelho, que é uma condição para se poder crer, que, por sua vez, é uma condição para receber o selo regenerador do Espírito. A fé vem através de ouvir a Palavra do Evangelho (Rm 10:17). Assim, o arminiano quer saber como o calvinista pode ensinar ser possível alguém estar em Cristo antes mesmo de crer e ser selado pelo Espírito?

Rm 8.1 diz que não há nenhuma condenação para os que estão em Cristo Jesus e sabemos também que os que não crêem estão debaixo da condenação (Jo 3.18). Sendo assim, seria contraditório afirmar que um incrédulo estaria em Cristo antes mesmo de sua conversão.

Se a graça fosse irresistível, como Saulo de Tarso teria sido capaz de recalcitrar contra os aguilhões? (Veja Atos 26:14). E se a graça fosse irresistível, como poderia ser possível a queda e a perdição de que cristãos verdadeiros que tiveram os seus olhos iluminados para verem e experimentarem o dom celestial de modo a terem se tornado participantes do Espírito Santo, e de terem também provado a boa palavra de Deus e os poderes do mundo vindouro (Hb 6.4-6)?

Santidade e perseverança são necessárias para evitar a remoção do candelabro (Ap 2.5), para garantir o acesso ao fruto da árvore da vida (Ap 2.7), receber a coroa (Ap 2.10), escapar da segunda morte (Ap 2.11) do juízo da espada (Ap 2.16), do risco de ser vomitado (Ap 3.16) e de ter seu nome riscado (Ap 3.5). E o que dizer também de textos como Hb 6.4-8; 10.26-31; 12.14-15; 1 Co 9:27; 2 Pe 1; 3.17-18 e Jo 15.6?

"Portanto, amados, sabendo disso, guardem-se para que não sejam levados pelo erro dos que não têm princípios morais, nem percam a sua firmeza e caiam. Cresçam, porém, na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. A ele seja a glória, agora e para sempre! Amém" (2 Pe 3.17 e 18).

No amor do Senhor,
Bispo Ildo Mello


*Bispo José Ildo Swartele de Mello
Casado com Ana Cristina, pai de três filhos: Samuel, Daniel e Rafael, é também Professor de Teologia, Escatologia e Evangelização na Faculdade Metodista Livre. Formado em Bacharel pela Faculdade Metodista Livre, cursou Mestrado em Teologia na Faculdade Teológica Batista de São Paulo e fez Doutorado em Ministério na Faculdade Teológica Sul Americana. Pastor desde 1986 (Cidade Ademar 86-88; Vila Guiomar 89; Vila Bonilha 90-97, Aeroporto 98-2004), serve atualmente como Pastor da Imel de Mirandópolis, como Bispo da Igreja Metodista Livre do Brasil e como presidente do Concílio Mundial de Bispos.

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Fontes:
http://www.metodistalivre.org.br/

http://imeldemirandopolis.blogspot.com/

http://www.escatologiacrista.blogspot.com/

Foto: Rev. José Ildo Swartele de Mello na cerimônia de consagração e instalação a primeiro Bispo Nacional da Igreja Metodista Livre em 2003.


sábado, 4 de setembro de 2010

E Deus com isso?

E Deus com isso?

Josué Oliveira Gomes*

Acho que não há dúvida que “tudo” é permitido por Deus. É fácil conferirmos isso através das notícias sobre a violência urbana, e sobre as mais diversas catástrofes naturais. De fato, não vemos nenhum movimento sobrenatural de Deus impedindo de forma concreta esse ou aquele fato. Sequestros, estupros, terror, morte covarde de crianças, jovens e adultos já nos sobejam nos noticiários.

Outra coisa que podemos afirmar que nem todo mal é mal em si. Sabemos que a tsunami foi um horror (mal) porque no seu trajeto muitos foram vítimas humanas. Uma enchente de um rio que levou centenas de casas e fez muitas vítimas assim ocorreu, não porque a enchente em si é um mal, mas por causa dos vitimados. Da mesma forma os tremores de terra acontecem, não por causa do homem, mas por causa das placas tectônicas. Isso nada tem a ver com o que é bom ou mal, a não ser quando sofremos.

E Deus com isso? Há algumas nuances observáveis nessa argumentação. Deus não deve ser responsável pela catástrofe como mal lançado contra os humanos maus, pois seria injustiça contra os “bons” que sofrerão de graça. Não creio que Deus mate a granel.

A presença do mal como sofrimento pode também ser vista como liberdade humana, logo amor de Deus. Deus “permite” tudo porque nos deixa livres para viver nossas escolhas. Há aqueles que escolhem a facilidade de moradia perto de vulcões pela beleza do lugar, aqueles que foram morar (escolha ou falta dela?) perto do açude ou rio para servir ao patrão entre o curral e a casa grande, aqueles que por um motivo ou outro moram em lugares com frequência de catástrofes, e ainda aqueles que em nome da fé derrubam aviões. E Deus permite? Sim, quem pode afirmar que não? Ele permite e sofre com tudo isso, basta lembrar que ele não agüentou nem ver seu filho sofrendo na cruz (Por que me desamparaste?), – identidade de nossos sofrimentos que, afinal, ele os levou sobre si.

Por outro lado, é claro que não duvido de seu poder, mas duvido que esse poder não seja expresso nas raias do amor. Porque, quem sabe esse todo-poderio não seja apenas mais sofrimento em nome de sua soberana escolha de amar, por isso nos deixar viver nossos dilemas enquanto nos convida a cuidar de nosso planeta?

*Josué Oliveira Gomes.
Pastor na Igreja Betesda em Maceió

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domingo, 8 de agosto de 2010

Philipp Van Limborch

Philipp Van Limborch ou Felipe de Limborch(Amsterdam, 19 junho de 1633 a 30 de abril de 1712) foi um pastor protestante e teólogo holandês remostrante.

Ele era filho de um advogado. Sua educação se deu nas cidades de Utrecht, Leiden e Amsterdã. Em 1652 estudou teologia na Universidade de Utrecht. Ele recebeu em 1657 uma nomeação como pastor na Igreja Remostrante em Gouda. Depois de 1667 ele foi transferido para Amsterdã. Um ano mais tarde,foi professor no Seminário Remostrante. Van Limborch era amigo do filósofo Inglês John Locke.

Sua obra mais importante, Institutiones Theologiae Christianae ad praxin promotionem pietatis et pacis, christianae directae UNICE (Amsterdam 1686) é uma exposição detalhada do sistema teológico de Simon Episcopius e Stephanus Curcellaeus. A quarta edição de 1715 contém a obra Relatio historica de origine et progressu controversiarum in foederato Belgio de praedestinatione. Limborch ainda escreveu:

De veritate religionis Christianae amica coltatio cum erudito Judaeo (Gouda 1687)
Historia Inquisitionis (1692), incluindo uma versão do Liber Sententiarum Inquisitionis Tolosanae (1307-1323)
Commentarius in Acta Apostotorum et in Epistolas ad Romanos et ad Hebraeos (Rotterdam 1711)


Seus trabalhos editoriais incluíram a publicação de vários trabalhos de seus predecessores e a publicação de cartas, obras como: Epistolae ecclesiasticae praestantum ad eruditorum virorum (Amsterdam, 1684), principalmente, as cartes de Jacobus Arminius, Joannes Uytenbogardus, Konrad Vorstius (1569-1622), Gerhard Vossius (1577-1649), Hugo Grotius, Simon Episcopius (seu avô) e Caspar Barlaeus; essas cartas são do valor grande para a história do arminianismo.

Uma tradução para o Inglês da Theologia foi feita por William Jones em 1702 sob o título de A Complete System or Body of Divinity, both Speculative and Practical, founded on Scripture and Reason (Londen 1702). A tradução da Historia Inquisitionis por Samuel Chandler, com uma longa introdução sobre a origem e evolução do processo e suas causas reais ou imaginárias [1].
A obra de Limborch - Liber Sententiarum Inquisitionis Tolosanae ainda é considerado um feito histórico pelo cuidado de sua transcrição de um manuscrito escrito pelo dominicano inquisidor Bernard Gui. Este manuscrito foi considerado perdido durante muito tempo, mas finalmente foi encontrado em Londres (British Library, MS. Adicionar. 4697). Uma nova edição do manuscrito ((Le Livre des sentences de l'inquisiteur Bernard Gui (1308-1323)) foram fornecidas por Annette Pales-Gobillard (2 volumes, Paris, 2003).

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Referências:
Wikipedia - com base no texto da Encyclopædia Britannica Eleventh Edition.
Para consultar:
A compleat system, or body of divinity, both speculative and practical : founded on Scripture and reason (1702)
http://www.archive.org/details/compleatsystemor01limb

THEOLOGIA CHRISTIANA - Latin
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Philippe van Limborch, De veritate Religionis Christianae Amica Collatio cum Erudito Judaeo, Basilea, apud Joh. Rudolph Im-Hoff, 1740, Texto: 692 págs. Indices: 28 págs.
Em destaque, a autobiografia do judeu Uriel da Costa (1585 - 1640), que desiludido com a religião judaica, se suicidou. Sua autobiografia intitulada Exemplar Humanae Vitae, foi transcrita por Philipp Van Limborc em sua obre De veritate Religionis Christianae Amica Collatio cum Erudito Judaeo.http://www.arlindo-correia.com/exemplar_humanae_vitae.html

Gravura: Philipp Van Limborch

terça-feira, 27 de julho de 2010

O caráter de Deus e a predestinação

2 - O caráter de Deus e a predestinação

John Wesley

Apresentam-se então o livre arbítrio de um lado e a condenação do outro. Vejamos qual é o plano mais defensável, se o absurdo do livre arbítrio, como alguém pensa ser, ou se o outro com o absurdo da condenação. Se for do agrado do Pai das luzes abrir os olhos do nosso entendimento, vejamos qual destes contribui mais para a glória de Deus, para a manifestação dos seus glorioso atributos, da sua sabedoria, justiça e misericórdia aos filhos dos homens.
Primeiramente a sua sabedoria. Se o homem for até certo ponto livre, se pela "luz que alumia a todo aquele que vem ao mundo" lhe forem postos diante de si a vida e a morte, o bem e o mal, então quão gloriosamente aparece a multiforme sabedoria de Deus em toda a economia da salvação do homem! Querendo-se que todos os homens sejam salvos, mas não se querendo forçá-los a isso, querendose que todos os homens sejam salvos, mas não como árvores ou pedras, mas como homens, como criaturas inteligentes, dotadas de entendimento para discernir o que é bom e de liberdade para aceitá-lo ou recusá-lo, o esquema de todas as suas dispensações vai bem com este seu ôrothesis seu plano, "o conselho da vontade"! O seu primeiro passo é feito no sentido de iluminar o entendimento pelo conhecimento geral do bem e do mal. O Senhor acrescenta a isto muitas convicções internas as quais não há um homem sobre a terra que não as tenha sentido freqüentemente. Outras vezes Ele, com delicadeza, move a nossa vontade, nos impulsiona a andar na luz. Instilanos no coração bons desejos, embora talvez não saibamos de onde vêm. Ele procede desse modo com todos os filhos dos homens mesmo aqueles que não têm conhecimento da sua palavra escrita. Mas supondo-se que o homem é, até certo ponto, um agente livre, que arranjo de sabedoria é organizado! Como cada parte deste plano convém a este fim! Salvar o homem como homem. Colocarem-se a vidae a morte perante ele e então, sem o forçar, persuadi-lo a escolher a
vida...
Chegamos à sua justiça. Se o homem é capaz de escolher entre o bem e o mal, ele se torna um objeto próprio da justiça de Deus que o absolve ou o condena, que o recompensa ou pune. Mas se ele não é, não se torna objeto daquela. Uma simples máquina não capaz de ser absolvida nem condenada. A justiça não pode punir uma pedra por cair ao chão, nem, no nosso plano, um homem por cair no pecado, ele não pode senti-la mais do que a pedra, se ele está, de antemão, condenado... Será este homem sentenciado a ir para o fogo eterno preparado para o diabo e os seus anjos por não fazer o que ele nunca foi capaz de evitar? "Sim, porque é a soberana vontade de Deus". "Então, ou temos achado um novo Deus ou temos feito um"! Este não é o Deus dos cristãos. Nosso Deus é justo em todos os seus procedimentos; não ceifa onde não semeou. Ele requer apenas, de acordo com o que Ele deu, e onde ele deu pouco, pouco será pedido. A glória da sua justiça está em recompensar a cada um segundo as suas obras. Aqui se mostra aquele glorioso atributo evidentemente manifesto aos homens e aos anjos de que se aceita de cada um segundo o que ele tem e não segundo o que ele não tem. Este é aquele justo decreto que não pode passar quer no tempo quer na eternidade...
Assim Ele gloriosamente distribui o seu amor, supondo-se que esse amor recaia em uma dentre dez de suas criaturas, (não podia eu dizer uma dentre cem?), e não se importe com as restantes, que as noventa e nove condenadas pereçam sem misericórdia ; é suficiente para Ele amar e salvar a única eleita. Mas por que tem misericórdia apenas desta e deixa todas aquelas para a inevitável destruição? "Ele o faz porque o quer" Ah!, que Deus concedesse sabedoria submissa àqueles que assim falam! Pergunto: qual seria o pronunciamento da humanidade a respeito de um homem que procedesse desse modo?
A respeito daquele que, sendo capaz de livrar milhões da morte apenas com um sopro de sua boca, se recusasse a salvar mais do que um dentre cem e dissesse: "Eu não faço porque não o quero"? Como exaltarmos a misericórdia de Deus se lhe atribuímos tal procedimento? Que estranho comentário é aquele da sua própria palavra: "A sua misericórdia é sobre toda a sua obra!"...
A soberania de Deus aparece: 1) Em fixando desde a eternidade aquele decreto sobre os filhos dos homens de que "aquele que crer será salvo" e o "que não crer será condenado". 2) Em todas as circunstâncias gerais da criação, no tempo, lugar, no modo de criar todas as coisas, em nomear o número e as espécies das criaturas visíveis e invisíveis. 3) Em conceder talentos naturais aos homens, estes a estes e aqueles àqueles. 4) Na disposição do tempo, do lugar e das outras circunstâncias exteriores tais como pais e amigos atendendo ao nascimento de cada um. 5) Na dispensação dos vários dons do seu Espírito para a edificação da sua Igreja. 6) Na ordenação de todas as coisas temporais tais como a saúde, a fortuna, os amigos, todas as coisas que carecem de eternidade. Mas é claro que, na disposição do estado eterno dos homens, não somente a soberania, mas a justiça, a misericórdia e a verdade mantêm as rédeas. O governador do céu e da terra, o Eu, Sou, sobretudo o Deus bendito para sempre, com aquelas qualidades, dirige e prepara o caminho diante da sua face.

Obras: "A predestinação calmamente considerada"
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BURTNER, R.W. e CHILES, R.E., compiladores. Coletânea de Teologia de John Wesley. Rio de Janeiro: Instituto Metodista Bennett, 1995. 2ed., 50-54
(X,232-36).

Gravura: Imagem de John Wesley.


quarta-feira, 21 de julho de 2010

Sobre a obediência aos mandamentos de Deus em geral.

Jacobus Arminius

Disputa 70

SOBRE A OBEDIÊNCIA AOS MANDAMENTOS DE DEUS EM GERAL.

1. Como o submeter da obediência é o dever de um inferior, portanto, para a realização da mesma, a humildade é necessária. Esta, geralmente considerada, é uma qualidade pela qual, qualquer um se torna pronto à submeter-se a outro, para realizar e executar suas ordens, e, neste caso, para submeter-se a Deus.

2. Obediência diz respeito em parte a um ato interno e, em parte a um externo. O desempenho dos dois é necessária para a completa obediência, verdadeira e sincera. Porque Deus é Espírito, e o observador de corações, que exige a obediência de todo o homem, tanto do homem interior como do exterior - a obediência pelas inclinações do coração e dos membros do corpo. O ato externo sem o interno é a hipocrisia, e o interno, sem o externo, é incompleto, a menos que o homem seja impedido da realização do ato externo, sem sua imediata culpa.

3. Com isto, quase coincide a expressão dos teólogos escolásticos" para executar uma ordem, ou de acordo com a substância do ato somente, ou igualmente de acordo com a qualidade necessária e o modo, " em qual sentido, igualmente, Lutero parece ter pronunciado essa expressão - " Advérbios salvação e maldição."

4. A graça e a concordância especial de Deus são necessários para o desempenho de toda a obediência, verdadeira e sincera, até mesmo para o homem interior, das inclinação do coração, e de um modo lícito. Porém permitimos que ela seja feita uma matéria de discussão, se a revelação, e aquela assistência de Deus, que é chamado de "geral", e que é contrário a esta ajuda especial, e distinta dela, seja suficiente para realizar o ato externo do corpo e da substância do ato.

5. Apesar de que a graça especial que se move, excita, estimula e incita a obedecer, fisicamente move o entendimento e a inclinação do homem, de modo que não possa ser de outra maneira do que afetado com a percepção dela, ainda ela não efetua ou alicia o consentimento exceto moralmente, ou seja, pelo modo da persuasão, e pela intervenção da vontade livre do homem, que a vontade livre não só exclui coerção, mas igualmente toda a antecedente necessidade e determinação.

6. Mas, que a especial concorrência ou assistência da graça, que é também chamado de graça "cooperante e de acompanhante" não difere em espécie, nem em eficácia dessa graça excitante, que é chamado de preveniente e operante, mas é a continuação da mesma graça. É denominada "cooperante" ou "concomitante", só por conta da concomitância da vontade humana, que a graça operante e preveniente aliciou da vontade do homem. Esta concomitância não é negada a quem a graça excitante é aplicada, a menos que o homem ofereça resistência à graça excitante.

7. Dessas premissas, podemos concluir que um homem regenerado é capaz de agir melhor do que ele faz, e pode deixar mais o mal do que ele deixa, e, portanto, que nem no sentido em que é recebido por Santo Agostinho nem naquele em que algum do nossos teólogos compreendem, é a graça eficaz necessária para o desempenho de obediência - uma particularidade que é muito harmoniosa com a doutrina de Santo Agostinho.

COROLÁRIO

Coação apenas limita a liberdade de um agente, não a destrói ou a tira fora, e tal circunscrição não é feita, exceto por meio de intervenção ou da inclinação natural, a inclinação natural, portanto, é mais contrária à liberdade do que a coação o é.

Tradução: Lailson Castanha.
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Fonte: ARMINIUS, Jacobus. The Works Of Arminius.Vl.2.
http://wesley.nnu.edu/arminianism/arminius/arminius.htm 

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Como Jacobus Arminius acredito que: "As Escrituras são a regra de toda a verdade divina, de si, em si, e por si mesmas.[...] Nenhum escrito composto por Homens, seja um, alguns ou muitos indivìduos à exceção das Sagradas Escrituras[...] está isento de um exame a ser instituído pelas Escrituras. É tirania, papismo, controlar a mente dos homens com escritos humanos e impedir que sejam legitimamente examinados, seja qual for o pretexto adotado para a tal conduta tirânica." (Jacobus Arminius) - Contato: lailsoncastanha@yahoo.com.br

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