Ideário arminiano. Abordagens sobre a teologia clássica de Jacó Armínio: suas similaridades, vertentes, ambivalências e divergências.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Salvação e graça salvadora.

John Wesley
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138 Salvação
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A graça de Deus da qual nos vem a salvação é gratuita em tudo e para todos É gratuita em todos a quem é concedida. Não depende de nenhum poder ou mérito no homem, em nenhum grau, nem no todo, nem em parte. Do mesmo modo ela não depende das boas obras ou da retidão daquele que recebe, de coisa alguma que tenha feito ou que seja. Não depende dos seus esforços, dos seus bons sentimentos, bons desejos, bons propósitos ou intenções, pois todos estes fluem da graça gratuita de Deus; são apenas a corrente, não a fonte. São os frutos da graça gratuita e não a raiz. Não são a causa, mas os efeitos da mesma. Seja o que for de bom que haja no homem ou que seja feito por ele, é Deus o autor e quem o faz. Assim é a sua graça gratuita em tudo, isto é, não depende de nenhum poder ou mérito no homem, mas somente de Deus que nos deu gratuitamente o seu próprio filho, e "com Ele deu nos gratuitamente todas as coisas".
Sermões: "Graça gratuita", 2-3 (J", VII, 373-74).agrado, opera em nós tanto o querer como o fazer". Esta posição das palavras ligando a frase pelo seu próprio agrado à palavra opera remove toda a imaginação de mérito no homem e dá a Deus a toda a glória da sua obra. Do contrário, poderíamos ter tidos motivos de nos vangloriarmos de quem foram nosso mérito, alguma bondade nossa, ou alguma coisa boa feita por nós que levou Deus a agir. Mas esta expressão impede todos os conceitos vãos e mostra claramente que o motivo da ação está totalmente nele, na sua graça e na sua misericórdia que não merecemos. É somente por estas que Ele é impelido a operar no homem tanto o querer como o efetuar. A expressão comporta duas interpretações, sendo ambas inquestionavelmente verdadeiras. Primeira: o querer pode incluir todo o mundo interior, o fazer toda a religião externa. E se for assim entendido, implica-se que é Deus que opera tanto a santidade interior como a exterior. Segunda: o querer pode compreender todo o bom desejo; o fazer, todos os resultados daquele. E então a sentença significa: Deus coloca em nós todo bom desejo e leva a bom termo todo bom desejo. Nada pode afastar mais diretamente o orgulho do homem do que uma profunda e duradoura convicção desta verdade. Se tivermos inteira compreensão de que nada possuímos que não tenhamos recebido, como nos poderemos gloriar como se não tivéssemos recebido? Se soubermos e sentirmos que todos os movimentos para o bem vêm de cima, bem como o poder que os conduz até o fim, se é Deus que não só infunde todo bom desejo, mas que o acompanha, pois do contrário desapareceria, então segue-se evidentemente que "todo aquele que se gloria deve gloriar-se no Senhor"... Primeiro. Deus opera em vós; Ele, portanto, pode operar. Do contrário seria impossível. Se Ele não operasse, seria impossível para vós o efetuardes a vossa própria salvação. "Para o homem, disse o Senhor, é impossível um rico entrar no reino do céu". Sim, é impossível a qualquer homem, a qualquer nascido de mulher, a menos que Deus opere nele. Visto que todos os homens são, por natureza, não somente doentes, mas "mortos em transgressões e pecados", não lhes é possível fazer qualquer coisa boa enquanto Deus não os levantar dos mortos. Foi impossível para Lázaro sair da sepultura, enquanto o Senhor não lhe deu vida. E é, do mesmo modo, impossível a nós sairmos dos nossos pecados ou realizarmos qualquer movimento nesse sentido, até que aquele que tem todo poder no céu e na terra chame nossas almas mortas para a vida. Entretanto não é isto desculpa para os que continuam no pecado e culpam o seu Criador dizendo: "Só Deus pode avivarnos, pois não podemos dar vida às nossas próprias almas". Admitindo-se que todas as almas dos homens estão, por natureza, mortas em pecados, isto não é desculpa para ninguém, visto que não há homem que esteja num mero estado de natureza, totalmente destituído da graça de Deus, a menos que tenha extinguido o espírito. Nenhum homem vivo está inteiramente destituído daquilo que é vulgarmente chamado consciência natural, embora esta não seja natural, e sim mais propriamente chamada graça salvadora. Todo homem a possui em grau maior ou menor, a qual não espera pelo chamado do homem. Todos têm, mais cedo ou mais tarde, bons desejos embora a maioria deles os afugente antes que lancem raízes profundas ou produzam qualquer fruto considerável. Todos os homens têm um certo grau da luz que mais cedo ou mais tarde, mais ou menos, ilumina a todos que vêm ao mundo. E os homens, ao menos que pertençam ao pequeno grupo de consciência endurecida, sentem-se mais ou menos mal quando agem contra a luz da sua consciência. De maneira que nenhum homem peca porque não possua a graça, mas porque não faz uso da graça que possui. Vós sois agora, portanto, capazes de operar a vossa salvação à medida que Deus agir em vós. Visto que Ele efetua em vós, por seu próprio agrado, tanto o querer como o fazer, sem que haja mérito em vós, é possível cumprirdes toda a justiça. É possível "amardes a Deus porque ele nos amou primeiro", e "andar em amor" segundo o exemplo do nosso grande Mestre. Sabemos, realmente, que a sua palavra "sem mim nada podeis fazer" é absolutamente verdade. Mas sabemos de outro lado que todo crente pode dizer: "Posso todas as coisas em Cristo que me fortalece".
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140 Salvação
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Apóstolo; do contrário Ele deixa de agir. A regra geral pela qual as suas dispensações procedem invariavelmente é: "Àquele que tem será dado, mas será tirado daquele que não tem", (isso não desenvolve a graça que já foi dada), "será tirado o que ele certamente tem". Assim devem ser as palavras. Mesmo Santo Agostinho que, geralmente, é considerado a favor da doutrina contrária, faz aquela feliz observação: "O que nos fez sem nós, não nos salvará sem nós". Ele não nos salvará a menos que "nos salvemos desta geração má", a menos que "combatamos o bom combate da fé e nos apoderemos da vida eterna"; a menos que "soframos o entrar pela porta estreita"; que "nos neguemos a nós mesmos e tomemos a nossa cruz diariamente", e nos esforcemos por todos os meios possíveis por "tornarmos certos o nosso chamado e a nossa eleição". Sermão: "Sobre a realização da nossa própria salvação", I, 1 aqui e ali (J, VI, 508-9, 511-13).
Não têm os cristãos em comum com os outros homens... Um princípio imaterial, uma natureza espiritual dotada de entendimento, e afeições e um certo grau de liberdade, um poder de movimento e governo próprios? Do contrário seríamos meras máquinas, blocos e pedras. E tudo que vulgarmente se chama consciência natural com a implicação de um certo discernimento da diferença entre o bem moral e o mal, com aprovação de um e desaprovação de outro, por um ajudador interno que desculpa ou acusa? Esta é certamente encontrada, pelo menos em grau diminuto, em todos os filhos dos homens, quer seja natural ou dada pela graça de Deus. Acha-se um pouco da mesma no coração de todo homem, discernindo o bem do mal, não somente dos cristãos, mas de todos os maometanos, todos os pagãos e até mesmo do mais vil dos selvagens. Sermões: "O tesouro celeste em vasos terrestres", I, 1, (J, VII, 345).
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Graça Salvadora 141
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A consciência... é a faculdade pela qual somos cônscios dos nossos pensamentos, palavras e ações, e do seu mérito ou demérito, de serem eles bons ou maus, e, conseqüentemente, merecedores de elogio e de censura. Um certo prazer segue geralmente o primeiro estado, e desconforto segue o segundo. Mas isto varia grandemente de acordo com a educação e milhares de outras circunstâncias. Pode-se negar que exista um pouco disto em todos os homens nascidos no mundo? Não aparece ela logo que se abre o entendimento, logo que se desabrocha a razão? Não começam todos então a saber que existe uma diferença entre o bem e o mal, seja qual for a imperfeição das várias circunstâncias deste senso do bem e do mal? Não sabem todos os homens, por exemplo, a menos que tenham sido cegados pelos preconceitos da educação, que é bom honrarem a seus pais? Não admitem todos os homens, mesmo os deseducados ou bárbaros, que é justo fazermos aos outros o que queremos que nos façam? Não são todos os que sabem disso, condenados pela sua própria mente quando fazem algo em contrário? De outro lado, não sentem a aprovação da sua consciência quando agem convenientemente? Parece ser esta faculdade a que se referem usualmente aqueles que falam de consciência natural, expressão encontradiça amiúde em alguns dos nossos melhores autores, contudo não estritamente certa, pois, embora num sentido possa ser chamado natural por achar-se em todos os homens, não é, todavia, natural, propriamente falando-se, mas um dom sobrenatural de Deus acima de todos os seus dotes naturais. Não, não é a natureza, mas o Filho de Deus que é "a verdadeira luz que alumia a todo homem que vem ao mundo", de modo que podemos dizer a toda criatura humana: "Ele, não a natureza, te há mostrado, ó homem, o que é bom". É o seu Espírito que te dá um exame interno que te faz sentir-te incomodado, quando andas de maneira contrária à luz que te foi dada.
Sermões: "Sobre a consciência", I, 3-5 (1, VII. 187-88)

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BURTNER, R.W. e CHILES, R.E., compiladores. Coletânea de Teologia de John Wesley. Rio de Janeiro: Instituto Metodista Bennett, 1995. 2ed.
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Como Jacobus Arminius acredito que: "As Escrituras são a regra de toda a verdade divina, de si, em si, e por si mesmas.[...] Nenhum escrito composto por Homens, seja um, alguns ou muitos indivìduos à exceção das Sagradas Escrituras[...] está isento de um exame a ser instituído pelas Escrituras. É tirania, papismo, controlar a mente dos homens com escritos humanos e impedir que sejam legitimamente examinados, seja qual for o pretexto adotado para a tal conduta tirânica." (Jacobus Arminius) - Contato: lailsoncastanha@yahoo.com.br

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