Ideário arminiano. Abordagens sobre a teologia clássica de Jacó Armínio: suas similaridades, vertentes, ambivalências e divergências.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

O SENTIDO DA LIBERDADE

O SENTIDO DA LIBERDADE
Emmanuel Mounier

Nunca será tarde demais para pensar sobre o sentido da liberdade.

Conheceis de certo a velhíssima história de Adão e Eva. Mesmo se não acreditais nisso, tomai a substância dela. O seu sentido é que Deus teria muito bem podido criar um ser maravilhoso, todo ele montado como um belo autômato. Mas, sendo Deus Liberdade ao mesmo tempo que Sabedoria, um ser feito à sua imagem não devia apenas ser constituído de forma a causar admiração às crianças, mas poder escolher livremente ser ou não ser essa maravilha. A árvore perigosa fora tomada como teste dessa opção  era, diz a Escritura, a árvore da Ciência do Bem e do Mal: traz, sem dúvida, esse nome a fim de indicar que a mesma seiva alimenta a um tempo o Bem e o Mal, que é temerário demais querer assimilar um ou outro, sumariamente, a qualquer uma das civilizações da história. E essa árvore, final de contas, crescia em uma espécie de Paraíso. Não é, portanto, amaldiçoada a procura do saber e do poder.

Eram estes de certo proibidos até que o homem, no seu crescimento livre, amadurecesse bastante para deles não fazer uso mortal.

Ele não soube esperar, segundo a narração sagrada: a sua impaciência teve um desfecho infeliz.

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MOUNIER, Emmanuel. Sombras de medo sobre o século XX; tradução de Salústio de Figueiredo. Rio de Janeiro: AGIR, 1958.
Foto: Emmanuel Mounier (1905 - 1950), filósofo personalista francês.


8 comentários:

  1. Olá Lailson Castanha, graça e paz!

    Sou cristão reformado, membro da IPB. Concordo com a proposição desse artigo pois ele se limita a aplicar essa liberdade apenas a Adão e Eva. Realmente eles foram os únicos a disfrutarem dessa real liberdade. Eles tinham (antes da queda) o poder de escolher o bem ou o mal. Porém, após a queda essa história mudou radicalmente.

    Um abraço fraterno!

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  2. Saúde, companheiro Wanderley.

    Obrigado, pela atenção, dispensada ao blog. Com você, concordo com Mounier, que, o primeiro homem, conhecendo outras possibilidades, e, optando pela possibilidade de contrariar a vontade de seu criador, fazendo mau uso de seu livre-arbítrio, inaugurou o infortúnio do homem. Porém, entendo que o livre-arbítrio não se encerrou com a queda,
    Não podemos ignorar alguns textos bíblicos que destacam que o homem é, mesmo depois da queda, incitado a praticar escolhas. Portanto, seu livre-arbítrio não termina em Adão. A queda acrescentou malefícios aos homens, inclinações perversas que só podem ser saradas a partir do momento em que o homem se rende a Deus, porém, responsabilidade de usar seu livre arbítrio para praticar escolhas, não foram tirados do homem por conta de suas más inclinações. Em Deuteronômio 30. 19, 20 lemos:

    “O céu e a terra tomo hoje por testemunhas contra ti de que te pus diante de ti a vida e a morte, a bênção e a maldição; escolhe, pois, a vida, para que vivas, tu e a tua descendência,
    amando ao Senhor teu Deus, obedecendo à sua voz, e te apegando a ele; pois ele é a tua vida, e o prolongamento dos teus dias; e para que habites na terra que o Senhor prometeu com juramento a teus pais, a Abraão, a Isaque e a Jacó, que lhes havia de dar.

    Em Josué 24.15 está escrito:

    “Mas, se vos parece mal o servirdes ao Senhor, escolhei hoje a quem haveis de servir; se aos deuses a quem serviram vossos pais, que estavam além do Rio, ou aos deuses dos amorreus, em cuja terra habitais. Porém eu e a minha casa serviremos ao Senhor”.

    Creio que não haveria convite universal, se não houvesse a possibilidade de o homem exercer seu o livre arbítrio. É feito um convite: quem tem sede, venha; e quem quiser, receba de graça a água da vida. (Ap 22.17) – é um convite, não uma imposição; um convite pressupõe aceitação ou rejeição. – “Como escaparemos nós, se não atentarmos para uma tão grande Salvação?” (Hb 2:3a)

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    1. Prezado irmão Lailson, graça e paz!

      Eu não nego que o ser humano é incitado a praticar escolhas. Isso é indiscutível em toda a Bíblia. A questão é: quando Deus incita o homem irregenerado a fazer uma escolha no campo soteriológico essa escolha sempre será pelo mal. O homem, em seu estado decaído sempre resistirá ao chamado de Deus.

      A única forma de um homem irregenerado se converter é se Deus intervir enviando o Espírito Santo para convencê-lo de sus miséria e traze-lo ao arrependimento. Se Deus não fizer isso o homem usará seu "livre arbítrio" apenas para dizer não a Deus.

      Nesses textos citados por você há palavras ditas "por" e "para" pessoas que já eram crentes. Todos os textos citados foram direcionados a quem já faziam parte do povo de Deus; a situação deles era diferente da de uma pessoa não regenerada. No ato da regeneração Deus nos devolve a liberdade que Adão perdeu no Édem.

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  3. Companheiro Wanderley, saúde.

    Se alguém recebe um convite, isso significa que ela já é povo de Deus ou que ela necessita confirmar sua condição? Não podemos nos esquecer de que Paulo afirma que nem todos de Israel são Israelitas. Os convites que lhes foram apresentados visava leva-los a aceitação, para entrarem definitivamente no Pacto. Não aceitando, não estariam listados como participantes da Aliança.

    Você não pode se esquecer de que as Escrituras quando afirmam: Porque a graça salvadora de Deus se há manifestado a todos os homens, (Tt 2:11) não delimita grupos de pessoas para a oferta da graça - crentes e não crentes; a manifestação salvadora é universal, e é através dessa graça já oferecida, que o pecador pode desejar abandonar o pecado e se render a Deus. Na carta de Paulo a Timóteo, o apóstolo incita ao seu discípulo e aos crentes que: “se façam deprecações, orações, intercessões, e ações de graças, por todos os homens;
    (...) Porque isto é bom e agradável diante de Deus nosso Salvador,
    Que quer que todos os homens se salvem, e venham ao conhecimento da verdade.
    (1 Tm 2.1-4).

    Ora, se está escrito que a vontade de Deus é que todos os homens se salvem, algumas certezas se podem extrair dessa assertiva, a saber:

    Deus realmente gostaria que todos os homens se salvassem.
    Se ele deseja que todos os homens se salvassem, ofereceu os meios para a salvação (a graça manifestada a todos os homens). A Bíblia fala sobre a ”luz verdadeira, que ilumina a todo o homem que vem ao mundo”. (Jo 1.9)
    Se os meios foram oferecidos, mas, mesmo assim nem todos os homens se salvam é porque os homens rejeitaram esses meios;
    E, se esses meio são rejeitados por muitos, é porque, muito se valeram de sua liberdade de escolha para rejeitar a oferta de Deus.

    “Porque Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que condenasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele”. (Jo 3.17)

    Portanto, se muitos serão rejeitados no dia do juízo, é porque, rejeitaram livremente a doação salvadora de Cristo. Por isso, serão julgados.
    Essa lógica é explícita nas Escrituras..

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    1. Lailson, a paz do Bom Mestre!

      Embora eu não tenha ainda me referido a doutrina da expiação limitada, gostaria de que você me dissesse a diferença entre essas duas palavras gregas: THELÕ e BOULOMAI e depois desse uma olhada novamente em 1 Tm 2.1-4 pra ver qual dessa duas palavras é usada por Paulo, e qual o seu real sentido no texto. (Mas, se preferir podemos deixar esse tema para outra ocasião a fim de não misturar-mos os 2 assuntos)

      Agora voltando ao tema da liberdade - Paulo disse que nem todos de Israel são israelitas se referindo aos judeus que rejeitaram o Messias. O texto de Dt 30.19-20 é aplicado a judeus crentes, ou seja, pessoas que estavam em aliança com Deus. Eles estavam sendo exortados a fidelidade e não sendo "evangelizados".

      Eu não nego que a pessoa tenha que "confirmar" sua posição. Deus não violenta nossa vontade. Realmente nós é que aceitamos a Jesus ou o rejeitamos. É verdade que todos somos responsáveis por nossas escolhas, porém, a menos que Deus nos convença de nossa pecaminosidade, tire nosso coração de pedra e faça resplandecer a luz do evangelho diante de nós, jamais teremos condição ou disposição de dizer "sim" a Deus.

      Poderemos pregar o evangelho da maneira mais fiel e clara possível, porém, se Deus não intervir poderosamente ninguém se converterá com nossa pregação. Existe uma lei no coração humano que lhe torna o evangelho repulsivo: a lei do pecado.

      Você acredita que o pecador possa vir a Deus e se converter sem que o Espírito Santo o convença de seus pecados? Você crê que alguém possa se converter sem que antes Cristo lhe dê a fé salvadora? Eu acreditaria que o ser humano é de fato livre apenas se ele pudesse por si mesmo vir a Deus. Se alguma ajuda externa é necessária, então ele não é livre.

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  4. Saúde, companheiro Wanderley

    O termo grego θελει [do verbo querer (ou desejar), é um verbo passivo/não ativo] não prejudica a exegese aplicada ao texto. Há coisas que Deus deseja, que não ocorrerão, porque o seu desejo está implicado em outros desejos. - Deus deseja sim que todos se salvem, porém, deseja que a salvação passe pelos caminhos que ele previamente estabeleceu. Portanto, o termo não nega a efetividade do desejo de Deus. O que pode se ressaltar é que esse desejo não se faz como um imperativo.
    O texto abaixo com autoridade, esclarece o que tento explicar:

    E ele é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo. ( 1João 2.2)

    Ou:

    Porque para isto trabalhamos e somos injuriados, pois esperamos no Deus vivo, que é o Salvador de todos os homens, principalmente dos fiéis. (1 Tm 4.10)

    Principalmente dos fiéis, porque estes se submetem a totalidade dos meios estabelecidas por Deus que confirmarão a salvação. O que implica na não salvação de todos, apesar da oferta, é que nem todos atentaram para as implicações da oferta salvadora, como nem todos os de Israel atentaram para as implicações da aliança.

    Não acredito que ninguém possa se render a Deus sem que antes, o Espirito o convença do pecado, porém, creio que mesmo convencido podemos resistir a Deus. Podemos conhecer, através do Espírito, a miséria do nosso pecado, e suas implicações nefastas, mas, mesmo assim, permanecermos agarrados. O contrário também é verdadeiro, ou seja, podemos, depois de convencidos, desejar a transformação oferecida por Deus. É isso que as Escrituras nos indicam quando expõe o seguinte texto:

    Ali estava a luz verdadeira, que ilumina a todo o homem que vem ao mundo.
    Estava no mundo, e o mundo foi feito por ele, e o mundo não o conheceu.
    Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que crêem no seu nome; (João 1.9 -12)

    Ou

    Porque Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que condenasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele.
    Porque Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que condenasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele.
    Quem crê nele não é condenado; mas quem não crê já está condenado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus.
    E a condenação é esta: Que a luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a luz, porque as suas obras eram más. (João 3.17-19)

    Outra questão importante, é que, o fato de receber ajuda externa não significa ausência de liberdade. A ausência de liberdade está ligada, não a ajuda externa, e sim, a não possibilidade de rejeitá-la. Temos que lembrar que do mesmo modo que ter força não significa ter todo o poder, outrossim, livre-arbítrio, não significa ter toda a extensão da liberdade –; toda liberdade humana é limitada, assim como, qualquer outro atributo. Podemos ter ciência, porém, não somos oniscientes. Podemos ter inteligência, porém, não necessariamente, somos sapientes. Podemos ser fortes, porém, não somos onipotentes, etc. Você está a confundir falta de qualidade de nosso livre-arbítrio, com ausência dele. Aliás, E a condenação é esta: Que a luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a luz (João 3.19a). A Luz oferece a clareza necessária para o homem enxergar com qualidade, porém, ele prefere as trevas do autoenganação.

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  5. Olá Lailson Castanha!

    Contrariamente ao que você disse o verbo Thelei esta sim na voz ativa (pode conferir), porém, o fato mais importante é que este verbo (thelo) designa um desejo sentimental e o outro verbo (Boulomai) designa um desejo decretivo (um texto interessante para notar a diferença entre esses dois verbos é Mt 1.19). Ou seja, Deus não fica feliz ao mandar os réprobos ao inferno, embora ele tenha decretado apenas a salvação dos que Ele mesmo elegeu antes da fundação do mundo, ou seja daqueles que ele decretou salva-los.

    Aqueles que Deus elegeu não são obrigados a serem salvos. Mais uma vez eu digo: Deus não violenta a vontade de ninguém. A grande questão é que os eleitos, ao serem convencidos de seus pecados invariavelmente desejarão a Deus. Nenhum destes desejará rejeita-lo. E os não-eleitos invariavelmente o rejeitarão, por mais convencidos que sejam.

    Textos como o de Rm 8.30 se aplicam apenas aos que Deus predestinou para a salvação. E não há nas Escrituras qualquer indicio de que um eleito possa rejeitar a Deus de modo definitivo. Aqueles que Ele predestina Ele: chama, justifica e glorifica.

    Finalizo com as Palavras de Nosso Senhor:

    Se pois o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres!

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  6. Saúde, Wanderley.


    O termo θέλω qelw = thelõ, é passivo - no contexto, o sujeito (Deus), deseja sem se fazer ação direta. É um sentimento, sem se transformar em uma ação efetiva. Vamos ao texto:

    Porque isto é bom e agradável diante de Deus nosso Salvador,
    Que θέλω (quer) que todos os homens se salvem, e venham ao conhecimento da verdade.
    Perceba, que apesar do querer o texto não revela uma ação direta de quem deseja.


    Em relação ao verbo, é o mesmo tom de (Rm 1.13) - Pois não quero (θέλω ) que ignoreis. O apóstolo deseja, e tão somente, porém, diretamente, fica no desejo.
    Em lucas 13.34 “Quantas vezes eu quis reunir os seus filhos, como a galinha reúne os seus pintinhos debaixo das suas asas, mas vocês não quiseram!” - da´se o mesmo tom.
    Foi o que eu tentei dizer, o realce do verbo não prejudica a exegese aplicada ao texto. Há coisas que Deus deseja, que não ocorrerão, porque o seu desejo está implicado em outros desejos.

    Vamos ao que mais nos interessa. Sobre o texto que você destaca ( Rm 8.30), não se pode despreza um fato: a carta continua, o texto não se encerra nesse capítulo. Você não pode esquecer que o chamado não efetiva a salvação, pois somente na glória seremos coroados. É tão real o que digo que, adiante, o apóstolo afirma para os mesmos destinatários:

    “Considera, pois, a bondade e a severidade de Deus: para com os que caíram, severidade; mas para contigo, benignidade, se permaneceres na sua benignidade; de outra maneira também tu serás cortado”. (Rm 11.22)

    A eleição estabelecida é a eleição da Igreja, ou seja, precisamos confirmar a nossa eleição, assim, como na primeira aliança Israel era o eleito, sabendo que nem todos os de Israel foram considerados israelitas. Como indivíduos, devemos atentarmos ao conselho de Pedro:

    Portanto, irmãos, procurai fazer cada vez mais firme a vossa vocação e eleição; porque, fazendo isto, nunca jamais tropeçareis. (2 Pedro 1:10).

    Através do evangelho todos recebem um chamamento – vinde a mim todos os cansados e oprimidos e eu vos aliviarei (Mt 11.28). Para aqueles que não acolhem, que resistem a graça, o juízo os aguarda, porém, para os que inicialmente acolhem o chamado, as advertências continuam; é necessário vigiar, para não perder a coroa, pois, a coroa será dada ao que vencer, ao que permanecer até o fim.

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Como Jacobus Arminius acredito que: "As Escrituras são a regra de toda a verdade divina, de si, em si, e por si mesmas.[...] Nenhum escrito composto por Homens, seja um, alguns ou muitos indivìduos à exceção das Sagradas Escrituras[...] está isento de um exame a ser instituído pelas Escrituras. É tirania, papismo, controlar a mente dos homens com escritos humanos e impedir que sejam legitimamente examinados, seja qual for o pretexto adotado para a tal conduta tirânica." (Jacobus Arminius) - Contato: lailsoncastanha@yahoo.com.br

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